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O Porsche da discórdia

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Quando eu achei que mais nada me surpreenderia na vida, afinal eu tenho 30 anos de política, fiquei surpreso ontem (24) quando li que o juiz federal Flávio Souza guardava, na garagem da sua residência, e usava, dois dos veículos que ele mesmo determinou a apreensão no curso da ação que o Ministério Público move contra Eike Batista.

Mais surpreso ainda fiquei quando a reportagem relata que o juiz foi fotografado chegando no prédio da Justiça Federal do Rio de Janeiro dirigindo o Porsche Cayenne apreendido, como se seu fora.

O patrimonialismo é uma praga incrustada no ventre das instituições nacionais, mas a forma como o juiz Souza agiu foi tão acintosa que extrapolou as raias da temeridade, adentrando a seara da mais completa falta de senso.

Um juiz que toma bens apreendidos e deles usufrui achando que a Justiça é sua particular propriedade, carece de equilíbrio para julgar, pois não é possível aceitar-lhe as explicações e quaisquer delas, por mais razoáveis que sejam, não retiram do fato a arbitrariedade.

É um fato da maior gravidade. Um bem apreendido precisa estar em poder da Justiça Federal, não na casa do juiz responsável pela decisão”, pronunciou-se Sérgio Bermudes, advogado de Eike Batista.

Sérgio Bermudes, aliás, alegando parcialidade, desde a semana passada espera do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), decisão em um pedido que fez para que o órgão afaste o juiz Souza do processo de Eike. Dois juízes do TRF-2 já votaram pelo deferimento do pedido. Com o caso agora em comento, é provável que o TRF-2 decida por afastar o juiz Souza do caso.

Mas a reprimenda ao juiz pode ir além: tão surpreso quanto eu, o jornalista Edmundo Leite, do Estadão, garimpou se havia notícia similar e achou um caso parecido. Em 1999, o juiz Nicolau Cassiano Neto foi condenado, por peculato, a “quatro anos e seis meses de prisão, em regime semiaberto, por utilizar, de 1986 a 1989, uma Belina Ford que ele mesmo havia ordenado a apreensão quando condenou uma quadrilha de traficantes”.

Comentários

  1. Não precisa ir muito longe para lembrarmos de casos semelhantes.
    Aqui no Pará, em meados da década passada, uma Juíza do TJ/PA foi presa por desviar depósitos judiciais em torno R$3 milhão, segundo denúncias de peculato do MP.
    Depois disso, a Juíza alegou que sofre de distúrbio bipolar.

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    1. Sim, há vários casos de desvio de comportamento no judiciário. Mas sair passeando pela rua com o objeto desse desvio de conduta é singular.

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  2. Não há nada de errado nessa atitude do Juiz , porque é "dever do juiz conduzir os autos do processo " .......

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    1. Ótimo! Vai para o frontpage hoje à noite.

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    2. sem esquecer do "transito em julgado"

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