22/03/2017

Mas o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo…

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A colagem acima, cortada de artigo publicado hoje (22) pelo jornalista Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo, traduz absolutamente tudo que se poderia escrever sobre as tais elites nacionais: posam de arautos da contemporaneidade ao capital internacional, ao qual se adaptam por imposição de uma economia globalizada, mas domesticamente exatamente, nos seus respectivos ramos, a postura no artigo elencada.

Abaixo, o artigo de Elio, que eu assino embaixo, e fala por si mesmo, sem necessitar de maiores explicações:

É que dinheiro nunca é demais

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A Confederal, entre 2010 e 2014, faturou dos Ministérios da Saúde, da fazenda e dos Transportes, R$ 164 milhões.

A Confederal pertence à Remmo Participações, que por sua vez pertence ao senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), atual presidente do Senado Federal.

Segundo declarou Eunício à Justiça Eleitoral em 2014, ele detém 99,99% da Remmo Participações, que além de controlar a Confederal controla a CORPVS, uma empresa de vigilância que, idem, obtém toda a sua receita do erário.

A CORPVS é quem presta os serviços de vigilância e transportes de valores às agências do Banco do Brasil no Ceará, estado natal do presidente do Senado e paga por ano R$ 78,9 milhões pelos serviços.

Em 2015, o Banco do Brasil nos estados de Goiás, Tocantins e São Paulo, pagou à Confederal R$ 52,6 milhões. A CEF e o Banco Central têm contratos com a dita cuja que somam R$ 147 milhões.

Até 2011, Eunício Oliveira, que antes de ser presidente do Senado foi três vezes deputado federal e ministro das Comunicações, era também dono da Manchester, do ramo de limpeza e serviços gerais. Entre 2007 e 2011, a Manchester faturou aproximadamente R$ 1 bilhão em contratos com a Petrobras.

Esses contratos foram alvo de denúncia ao MPF, que acusavam Eunício de ter fraudado os processos licitatórios para havê-los. O álibi apresentado foi que ele havia deixado a administração da Manchester em 1998 e, em 2011, transferiu suas cotas para os antigos sócios.

Aliás, esse é o mesmo álibi usado por Eunício Oliveira quando é questionada a sua propriedade da Remmo Participações e se ele, em sendo um político de grande envergadura na República, não pratica tráfico de influência, já que as suas empresas têm praticamente 100% da receita advinda de órgãos governamentais.

O senador responde que é apenas detentor de 99% das cotas da Remmo e há muito está fora da gerância e da administração do grupo, cumprindo a imposição constitucional de que detentores de mandato, que exerçam gerência ou administração de empresas, impedem essas de contratar com o poder público.

Quem preside a Remmo é Ricardo Lopes Augusto, sobrinho de Eunício. Ricardo Augusto foi um dos alvos da Operação Satélites, que por determinação do STF, fez ontem (21) busca e apreensão em 4 estados do Brasil.

Ao contrário do que os desavisados possam pensar, o senador Eunício Oliveira não está na mira do STF por conta dos contratos das empresas controladas pela Remmo, que ele não gerencia e nem administra.

A razão é porque o executivo da Odebrecht, Cláudio Melo Filho, em delação na Lava Jato, disse ter pago R$ 2 milhões à Eunício como “suborno” para a aprovação da medida provisória 613, que tratava de incentivos tributários, aquela na qual a Odebrecht deixou de desembolsar 100 vezes mais do que diz que distribuiu de “subornos”, e Melo Filho disse que quem tratou de tudo foi exatamente o sobrinho, Ricardo Augusto.

Se assim, por suposto, foi, o dinheiro é uma droga mesmo. Um homem rico como Eunício Oliveira, dono de 99% das cotas de empresas que faturam quase R$ 800 milhões por ano, e com certeza recebendo religiosamente em dia, está exposto por conta de R$ 2 milhões.

21/03/2017

Startup norte-americana anuncia que desenvolveu carne em laboratório, com mesma textura e sabor

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Enquanto por aqui nos batemos com a cor da carne, a startup americana Memphis Meats anunciou que finalmente encontrou a pedra filosofal da proteína animal, ao produzir os primeiros filés de frango e de pato do mundo "sem sacrifício do animal" e com a mesma textura e sabor dos que Deus criou.

Os filés foram produzidos em laboratório, usando como matéria prima células dos respectivos animais, no que seria um uso industrial das células tronco.

Na apresentação da proeza, a Memphis Meats diz em seu sítio:

"Esperamos que nossos produtos sejam melhores para o meio ambiente (demandando até 90% menos das emissões de gases de efeito estufa, terra e água do que a produção convencional de carne), para os animais e para a saúde pública. E o mais importante, eles são deliciosos".

A startup planeja povoar os refrigeradores dos supermercados norte-americanos com a “carne limpa” em 2021, mas ainda não disse o preço que o distinto público deverá pagar por ela.

A carne não é fraca

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Finalmente a imprensa está mostrando os equívocos que são embarcados nas grandes operações da PF, que cumpre o seu papel, mas encapa o caderno com muito estardalhaço, coisa que venho dedilhando aqui desde há muito.

A mudança de tom que a imprensa adotou nas reportagens da Carne Fraca é prova da força do poder econômico, que reagiu com competência na mitigação do estrago no seu ecossistema.

O tom agora adotado é, idem, o mais perfeito índice de que em outras operações da PF as mesmas precipitações podem ter ocorrido, pois se tornou praxe na instituição passar cinzel em diálogos telefônicos para que eles caibam no encaixe que o processo investigatório não preenche.

Isso não significa que a talhadeira não tenha dado a forma que o fato investigado teria, mas quando a ponta do ferro é nos quartos dos políticos a repercussão segue a procissão sem nenhum cuidado com o andor.

Ao contrário, quando a incandescência pousa na venta do poder econômico, e esse faz observar que é anunciante de escol e ainda aumenta a verba, jamais houve dantes na história do Brasil uma releitura tão rápida e tão diversa da imprensa, a ponto de em 24h a Polícia Federal, nas tintas, se tornar de guardiã do estômago nacional em uma atabalhoada vilã da balança comercial.

O governo federal, com o mesmo afã, e obviamente em uma investida de Estado, pois é fato que a reputação internacional da carne brasileira, conseguida a duras penas, está sob ataque devido a generalização que o mal enjambrado anúncio da operação Carne Fraca causou, destacou o Ministro da Agricultura para atacar a Polícia Federal em uma tática de governo de uma só mão, pois, ao mesmo tempo em que o governo faz o legítimo jogo dos exportadores, não dedica a mesma expediência para defender o consumidor doméstico, que paga a maior parte da conta, eis que as exportações não chegam à terça parte do consumo interno.

E aí se nota a diferença entre a mentalidade político-administrativa europeia e a brasileira: todos os pronunciamentos europeus que investem contra a carne brasileira colocam em evidência a defesa do consumidor final, enquanto todos os movimentos que o governo nacional fez até agora colocam em evidência a salvaguarda da exportação tão somente, e o consumidor que se vire para entender o que é ácido ascórbico.

Só apelar por confiança não é o suficiente, antes porque, na atual conjuntura, o cidadão dá menos valor aos políticos, e aos seus agregados, do que a um quilo de carne vencida. O que o governo precisa fazer domesticamente são ações efetivas que demonstrem à população que o que ocorreu nos locais indicados pela PF não é um padrão que, mesmo esparsamente, se pode estar repetindo alhures.