22/05/2014

Os intocáveis

Há 47 anos Sudhira, 60, sai de casa todas às manhãs portando uma pá e um cesto para começar o seu trabalho: colher as fezes de 10 casas cujos proprietários lhe pagam 20 rúpias (R$ US$ 0,72) e um pão.

Sudhira pertence a uma casta chamada de “Dalits” ou “intocáveis”. A denominação é óbvia: ninguém, salvo os membros da própria casta, podem tocar nas pessoais que fazem tal trabalho, pois elas são “poluídas”.

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Mais da metade dos indianos pratica o sistema de castas, advindo da crença religiosa, produzida na organização social, de que as pessoas vêm ao mundo para cumprir uma obrigação na vida, o karma.

O karma dos 1,3 milhão de intocáveis na Índia é penoso: colher fezes por toda a vida. E adivinhem quem, na casta, está obrigado a fazer o trabalho sujo: as mulheres.

> Na 3ª economia do mundo

Tal excrescência ocorre na Índia, segundo dados do Banco Mundial, publicados em 29.04.2014, a 3ª economia do mundo, mas onde 600 milhões de pessoas – praticamente a metade da população – expelem seus excrementos ao ar livre ou em covas rasas nos quintais.

Por pressão do Banco Mundial, que declara que 780 mil indianos morrem por ano por falta de saneamento básico, e organismos internacionais de direitos humanos, o governo aprovou, em 2013, uma lei que proíbe a atividade, mas na Índia, como no Brasil, algumas leis “não pegam”.

> Em comparação

O quadro é desalentador? Sim, mas o que narrei ao norte serve a um exercício comparativo a cometer:

A Índia, com um PIB per capita de US$ 3,7 mil, já conseguiu prover saneamento básico para 600 milhões de pessoas (as outras 600 milhões vivem o drama narrado), o que são, em termos populacionais, quase três brasis.

O Brasil, com um PIB per capita de US$ 10,9 mil, quase o triplo da Índia, provê saneamento básico para apenas 150 milhões dos seus 201 milhões de habitantes, ou seja, embora com o vergonhoso sistema de castas, no que tange a saneamento básico, a Índia está três vezes melhor que o Brasil.

Não vale concluir que precisaríamos importar da Índia os “intocáveis”, para Brasília, onde teriam muito mais matéria para cumprir os seus respectivos karmas.

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