27/07/2015

De Emil, o homem que fazia mapas, a Marcelo, o homem que anotava

Em 1856 emigrou da Pomerânia, à época território polonês, o engenheiro geodésico Emil Odebrecht. No Brasil, radicou-se na Colônia São Paulo de Blumenau, hoje a cidade de Blumenau, então com apenas 6 anos de fundação.

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Segundo os arquivos da família, a descendência de Emil, até o final do século XX, era de cerca de 1.300 pessoas. Um dos netos é famoso na área de engenharia civil: Emílio Baumgart, introdutor do concreto armado no Brasil.

Há um bisneto e um tataraneto também famosos: Norberto Odebrecht, o fundador da Organização Odebrecht, um dos maiores conglomerados empresariais da América Latina, e Marcelo Odebrecht, atual presidente da organização e ranqueado pelo Grupo IG como a 22ª pessoa mais poderosa do Brasil, preso desde 19 de junho, na esteira da Operação Lava Jato.

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A Organização Odebrecht, fundada em 1944, tem números superlativos até em escala global: suas empresas operam no ramo industrial, construção civil, energia, química e petroquímica, nas Américas, Europa, África e Oriente Médio. O relatório de 2014 da organização declara que ela possui, em todo o mundo, 181 mil funcionários e faturou R$ 107 bilhões.

Para efeito de comparação, abaixo o número de funcionários das grandes empresas de tecnologia:

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É uma pergunta de resposta complexa, que envolve mergulhar até o perau do sistema político e administrativo nacional: por que a maior construtora do Brasil, pertencente a um grupo cujo faturamento é composto por apenas 0,7% de negócios com a Petrobras, deixou-se envolver em tamanha estupidez?

Aliás, veja abaixo como as empresas envolvidas na Lava Jato tinham pouca dependência da Petrobras:

Poderão vir respostas simples, lúdicas, exasperadas e prosaicas, mas nenhuma caberá em espaço tão banal, pois destrinchar a gênese da operação Lava Jato é escrever a mais esclarecedora tese sobre o patrimonialismo nacional, já que o excipiente dessa epopeia de ponta cabeça, no que concerne ao lado da moeda cuja face é das empresas, não trata de dinheiro, mas de poder.

Os capi das corporações, apanhados na esteira da Lava Jato, compravam o Brasil com o que para eles era gorjeta, e com elas se tornavam os senhores da República sem nunca terem sido votados. Seriam essas as “forças ocultas” referidas por Jânio Quadros?

As anotações de Marcelo Odebrecht, apreendidas em papel e na forma de e-mails e mensagens de texto, são preciosíssimas provas materiais dos seus supostos crimes.

Engenheiro civil e mestre em economia e negócios pelo Institute for Management Development (IMD), em Lausanne, na Suíça, ranqueada em 1° lugar no mundo na sua especialidade (escola de negócios), Marcelo Odebrecht desenvolveu um método científico de conduzir o grupo: anotava sistematicamente tudo e passava as ordens em forma de pontos que se iam ligando conforme chegavam aos destinatários.

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É a velha organização e métodos, desenvolvida por Max Weber e mais tarde consolidada na Teoria Estruturalista, ainda provada imprescindível na operacionalização administrativa.

Marcelo Odebrecht era o analista de O&M de si mesmo, mas esqueceu que no meio da sua sistemática, por suposto, também iam  determinações criminosas, que, apreendidas pela PF, nas escutas e interceptações e nas buscas e apreensões perpetradas na 14ª fase da Lava Jato, quando ele foi preso, acabaram por ser o seu cadafalso. Ele era tão organizado que escreveu o seu próprio Iter criminis, esquecendo que, embora não exista crime perfeito, o criminoso menos ineficaz é aquele que tem a melhor memória, pois deixa menos pistas.

Arredadas as repercussões criminais, os pergaminhos de Marcelo Odebrecht, lidos com os olhos da ciência política, revelam profundo conhecimento da neurologia da corrupção nacional, que tem o mesmíssimo padrão na Federação, nos estados e nos municípios.

A questão, portanto, além de um caso de polícia, tem um diagnóstico patológico e conceitualmente reverso. É um contágio visto pelo tecido público como meio, e se esse diagnóstico não for observado, para que se trate todo o organismo, a parte submersa desse iceberg continuará a colocar a pique os nosso navios.

11 comentários:

  1. A mídia pesa a mão nos políticos envolvidos no escândalo da Petrobras mas não comentam sobre a vergonha de empresários ricos se promiscuirem a ponto de ficarerem presos. Isso também é uma Vergonha. Ou não?

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    1. amigo, só quem está preso são os empresários...os politicos até agora nada!! acho q vc ta confundindo as coisas

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  2. Bom dia...concordo inteiramente com o seu texto...o tesão não é o dinheiro é o poder sobre os outros..neste caso sobre o País!

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  3. O maior problema daquele que se acha "esperto" é considerar que todos são burros demais para alcançar suas armações.

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  4. Mas o blogueiro via como desnecessaria a manutencao da prisao no inicio.

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    1. Continuo vendo. Antes era desnecessária porque tudo o que a Justiça precisa para condenar Marcelo já estava entregue pela PF. A única coisa nova durante a prisão foi o mero bilhete de Marcelo, interceptado pela PF, o que em nada acrescenta o farto material que já existia.
      Agora, além de desnecessária, ela é ilegal, pois o inquérito fica sendo esticado na irregular tática de tentar uma delação premiada.
      Todos os indiciados na Lava Jato não precisam mais estar presos, devem ser condenados e aí sim, presos, cumprirem suas penas.

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    2. Interessante, os tribunais superiores também não acham desnecessárias. Todos estão mancomunados em manter prisões ilegais? Fico satisfeito em ver os ******** falarem mal do Moro (o novo ditador do Brasil), da PF do MPF (Janot), mas ninguém questiona o STF, que mantém os presos na cadeia, que autoriza busca e apreensão em casa de políticos. Políticos são um bando de covardes. A explicação (ou falta) dos advogados da Odebrecht é ridícula, parece aquela mulher que numa DR diz ao marido: "já que você não sabe o que você fez, não sou eu que vou dizer".

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    3. E você acha que algum desembargador ou ministro vai mudar soltar alguém? Se o fizer não mais poderá andar na rua sem ser linchado. O juiz Moro está tendo todo o apoio dos tribunais sim. O meu ponto de vista é meramente processual. O coloquial está nas ruas. E se assim é, assim será, ora pois.

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    4. Se assim fosse, o Lewandowski e o Toffoli não sairiam de casa. Recebi uma charge que trata das justificativas da defesa do Marcelo Odebrecht em relação aos manuscritos, muito engraçada. O Marcelo estaria mais bem assessorado se contratasse esse grupo de comédia.

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    5. Isso é porque você não está andando com eles. Mas nenhum dos dois nada tem a ver com a Lava Jato e o Lewandowski, que labutou pelo devido processo legal no mensalão, foi várias vezes hostilizado. E como gato escaldado tem medo de água fria, em um dos seus plantões no STF, negou recurso para libertar presos da Lava Jato.
      Os advogados da Odebrecht têm que fazer graça mesmo, pois o Moro fez graça com eles ao pedir explicações. Juiz é pra julgar processos, analisando acusação, autos e defesa e não para pedir explicações de atos do indiciado e advogados são para produzir a defesa e não para explicar as atitudes dos seus clientes.
      Como eu já lhe afirmei, nada disso é necessário, pois, contra todos os indiciados e réus das Lava Jato, já há provas para condenar à pena máxima.

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  5. será que é possivel uma empresa que presta serviços para entes publicos sobreviver sem pagar propinas no brasil?

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