01/07/2015

Crônica de uma tragédia grega anunciada

Shot 007Porque tragédia vende mais que pipoca em cinema, a imprensa alastra que se a Grécia não pagou ontem (30) uma parcela de € 1,6 bilhão que deve ao FMI, o Olimpo desaba sobre Atenas e o estrupício arrasa a zona do euro. Isso é um exagero, antes porque, não pagar uma dívida no vencimento é inadimplência e não calote.

Há uma tragédia na Grécia, de fato. A conta de anos, sacando a descoberto, chegou quando o mundo experimentava a maior crise econômica desde 1929. Vencida a promissória, os gregos viram o cinto apertar mas não providenciaram o regime: ou espocava a barriga ou o cinto. Espocaram os dois.

Aí o governo grego pediu socorro à troika, acertando um empréstimo de € 240 bilhões para cobrir um rombo de 177% do PIB, o que é alto para os padrões da zona do euro, que tem dívida pública média de 92% do PIB.

A troika impôs condições, na base do pegar ou largar. A Grécia pegou e, ao invés de fazer a empreitada assinada, continuou a festa, pois os gregos não queriam que parasse a música.

Para prosseguir a rave chegou o enfant terrible Alexis Tsipras, eleito primeiro-ministro com a missão de dizer à troika que não pagaria a parcela do empréstimo se as condições não mudassem.

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Quais as condições do devedor? Pagar a parcela de € 1,6 bilhão, desde que o board libere a última parcela de € 7,2 bilhões, para completar os € 240 bilhões já gastos não se sabe onde, pois a tragédia continua.

Ainda, o FMI ainda tem que liberá-lo das cláusulas impopulares do empréstimo que são cortar gastos previdenciários, aumentar impostos e gerar superávit escalonado, ou seja, parar a música.

Para se prevenir, Tsipras mandou fechar os bancos até a próxima segunda-feira (6) e limitou os saques nos caixas eletrônicos em € 60 por dia. Se não fizesse assim não sobraria banco de pé do Ormênio ao Peloponeso.

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E o que acontece se a troika, de fato, levar um calote? A imprensa especula: a Grécia sairia da zona do euro; o Banco Central Europeu limitaria o seu programa de socorro aos bancos gregos, que entrariam em colapso, puxando uma nova crise em toda a Europa; o governo grego atrasaria salários e pagamentos da previdência, ou seja, Zeus despejaria seus irados raios à planície.

Pode ser. Mas seria o final dos tempos? Não. A Grécia sair da zona do euro não retira a liga da União Europeia e nem despedaça o euro no resto da zona (sem trocadilhos infames). Ademais, não devemos achar que tanto os chefes da troika quanto a Grécia não fizeram os seus cálculos antes de esticarem a corda: embora sofram escoriações na queda, ninguém morre se arrebentar o cabo.

É certo que o caixa do FMI abaçana, mas a zona do euro não vai falir por um calote de € 1,6 bilhão e nem de € 240 bilhões, e a Grécia, mesmo saindo da zona do euro, pode renascer a sua dracma das cinzas, o que vai ter como efeito um considerável aumento de preços, desabastecimento e empobrecimento do país, se é que ainda há fundo a cavar no poço, mas não há noite tão longa que não chegue o dia, e se eles estão pegando na rodilha é porque acham que podem com o pote.

Portanto, não se preocupe: ao contrário do que a imprensa pregava ontem, mesmo a Grécia não tendo quitado a parcela em dia, o Sol nasceu hoje e vai se por à tardinha, para tornar a nascer amanhã.

2 comentários:

  1. Francisco Marcio01/07/2015 20:33

    O Dr. desfila o saber com maestria. As vezes, penso que o Sr. ter enxaqueca e não precisa dormir mais de 4 horas por noite, é um lucro grande... Li que a Inglaterra, a Suíça, entre outros, não fazem parte do "Euro" e nem por isso estão no fundo do poço.

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    1. Isso é porque tu não sabes o que é uma enxaqueca...

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