23/05/2015

“Mad Max: A Estrada da Fúria”. O road movie definitivamente definitivo

O primeiro Mad Max, distopia dirigida por George Miller em 1979, alçou Mel Gibson ao estrelato na pele de Max Rockatansky.

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O sucesso do primeiro trouxe duas sequências, ambas com Mel Gibson no papel: “Mad Max 2: The Road Warrior” (1981) e “Mad Max Beyond Thunderdome” (1985), que contou com Tina Turner como a anti-heroína da distopia. Muitos, a maioria, definem Aunty Entity, a personagem vivida por Turner, como a vilã do filme, do que eu discordo, pois o vilão é um ser sem caráter e Aunty Entity tinha um.

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Todos os três Mad Max foram aclamadas pela crítica, que, aliás, é avessa à filmes do gênero, mas o talento do diretor australiano, submeteu-a.

Desde 1985 esperava-se mais uma aventura do guerreiro da estrada, mas George Miller relutava em reincidir. Além dos percalços circunstanciais, achava que nada tinha a acrescentar à saga e o quarto Mad Max foi ficando assim como uma hipotética continuação de “E o vento levou…”, no limbo.

Mas eis que 30 anos depois George Miller apresentou o seu reboot em 2015 com “Mad Max: Fury Road”, e creio que não poderá haver um quinto, pois Miller fez o road movie definitivo. Um espetáculo cinematográfico muito além da cúpula do trovão.

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Embora Miller o quisesse, Mel Gibson não fez o seu canto de cisne: não foi aceito pelo cast por conta de problemas que tem enfrentado com a imprensa, que resolveu, não sem motivos, iniciar uma cruzada contra ele, acusando-o de antissemita, racista e, mais grave, violento com mulheres.

Mas se para os saudosistas da série, como eu, houve certo ressentimento com a ausência de Gibson, isso é superado nos primeiros minutos do filme, quando Tom Hardy já diz a que veio.

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George Miller elaborou, com todos os elementos que a tecnologia de filmagem hoje dispõe, uma belíssima sinfonia cinematográfica que, com todos os seus tempos, toma conta dos seus sentidos durante os 120 minutos.

E se você for assistir, não pisque, pois os segundos que perder serão preciosos. Miller usou 11 câmeras para captar uma coreografia de ação pouco vista no cinema em estado bruto: 90% das cenas não tiveram trucagem digital (!). Sim, 90% do que você assistir é filmagem em estado bruto. Uma impagável temeridade.

Nesses filmes definitivos, sempre aparece alguém que rouba a cena, deslocando os holofotes do que deveria ser o personagem principal.

Se “Mad Max: Fury Road” foi o road movie definitivo, Charlize Theron, no papel da imperatriz Furiosa, foi a road warrior definitiva. Ela está um terno e talentoso espetáculo e conseguiu repetir o que não fazia desde Monster, (no Brasil “Desejo Assassino”), quando protagonizou a prostituta Aileen Wuornos, pelo que arrebatou o Oscar de melhor atriz em 2004.

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A construção da personagem por Theron é primorosa e se todos os Mad Max anteriores foram sagas masculinas, Charlize Theron fez “A Estrada da Fúria” ser uma sinfonia feminina de esperança no meio do caos e do desespero.

Um imprevisto contribuiu com a fotografia: como os demais filmes da série, esse derradeiro se filmava no deserto australiano, mas em pleno início das cenas, chuvas torrenciais fizeram o deserto florir.

Miller, então, deu uma guinada e decidiu que “A Estrada da Fúria” seria rodada em um local digno da saga: o Deserto do Namibe, na Namíbia, uma vastidão de 80,9 mil km² considerada uma das paragens mais inóspitas do planeta.

Considerado o mais antigo deserto do mundo, as dunas do Namibe chegam a alcançar  400 metros de altura, por isso as suas tempestades de areia são aterrorizantes (e uma das cenas memoráveis do filme é exatamente uma tempestade areia). Charlize Theron, durante as filmagens, teria comentado que naqueles seis dias em que Deus fez o mundo, certamente escolheu um no qual estava muito zangado para fazer o Namibe.

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Sou suspeito para falar sobre “Mad Max: A Estrada da Fúria”, pois sou aficionado por filmes assim, feitos com a alma do diretor, para serem definitivos.

Portanto, se você gosta do gênero, vá assistir e tire as suas conclusões. Mas aviso novamente, não pisque.

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Como pisquei duas vezes, vou ver de novo.

10 comentários:

  1. Realmente. Apesar do lapso temporal o mesmo tem o espírito dos demais. Recomendo quem puder assistir em imax. Infelizmente em Belém os cinemas ainda não tem tal tecnologia

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  2. Bom dia! Depois deste texto só nos resta assistir caso contrário ficaremos desconsolodados. Pergunto? Se vistes em Belém..podes nos dizer qual a sala..pois esses filmes precisam de salas bem equipadas...Bom domingo

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  3. não vi nenhum dos filmes da serie, mas um comentario me escandalizou: o de que o vilão é um ser sem carater.
    o conceito do que é carater pode ser um pouco subjetivo, mas os vilões, os bandidos, podem ter principios. Será que ter principios é algo diferente do que ter carater? Os membros da mafia siciliana não traem as mulheres, por exemplo. Muitos bandidos são prodigos em ajuda assistencialista aos moradores dos seus "dominios".

    Por outro lado, talvez seja verdade que nos filmes sempre mostram os bandidos serem sem carater, mas no mundo real não é assim.

    será que essa filosofia tem algo a ver com a liberdade que se dá aos criminosos neste pais?

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    1. Isso tem que ser longo...
      Não se escandalize com tão pouca coisa.
      Embora ter princípios tem como efeito ter caráter, nenhum dos dois tem conceito subjetivo e nem podem ser confundidas as suas respectivas definições, pois são diferentes dialeticamente: aquele é o conteúdo; esse é o continente.
      Princípio é regra de comportamento objetivamente estabelecida; carácter é o feitio moral da regra repercutida no comportamento social.
      Se você se comporta conforme as normas filosóficas do bem, é avaliado como de bom carácter. Se você se comporta conforme os princípios filosóficos do mal, é avaliado como de mau-caráter. Um é a corda; outro dita as horas.
      As regras de comportamento (princípios), todavia, são passives de exceções, conforme o etos de quem as instrumentaliza (caráter).
      Por isso, avaliamos de bom ou mau caráter, o comportamento genérico. Não devo avaliar como de mau-caráter alguém que sempre age conforme os princípios do bem, mas eventualmente tem más atitudes. Idem, não devo avaliar com um bom caráter alguém que sempre agiu conforme os princípios do mal e eventualmente pratica um bem.
      Mas há um terceiro tipo de atitudes e de pessoas: são aquelas que não se comportam conforme os princípios do bem ou do mal, tomando atitudes de sua própria conveniência conforme as suas próprias regras, geralmente mesquinhas e egoístas: são egocêntricos e querem o mundo conforme as suas próprias vontades. Esses são desprovidos dos princípios que norteiam a boa convivência social e se são desprovidos de princípios são, idem, desprovidos de caráter, porque são os princípios que moldam o caráter. Esses são os sem caráter, o pior tipo de pessoas. Os vilões.
      Do bom caráter espera-se o bem, do mau-caráter espera-se o mal. O vilão é sem caráter, pois não obedece a princípios e eles são a pior espécie de seres humanos, pois deles se pode esperar qualquer coisa, até o bem, desde que isso lhe sirva aos intentos.
      O sem caráter é o diabo, e ele, como ensinou William Shakespeare, “pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”.
      Ah, e não se iluda com literatura referente. Os mafiosos sicilianos, embora as regras da máfia orem que as mulheres não devem ser traídas, eles as traem sim, e muito, porque, quando lhes é conveniente, e a carne é fraca, não comungam com princípio algum, nem os da máfia, porque eles estão entre aqueles sem caráter: são vilões.
      Da mesma forma, os traficantes que praticam assistencialismo, não os fazem como atos de bondade, mas por conveniência personalíssima: faz parte dos negócios. Eles não têm os princípios filosóficos do bem ou do mal a lhes nortear as ações, portanto, não tem caráter. São vilões.
      E para encerrar, pois longe já fomos, não são fundamentos filosóficos que dão liberdade ou prisão aos criminosos, mas a qualidade do sistema penal e a capacidade da República de recuperar ou não quem delinquiu, por ter sido mal assistido na missão de aprender princípios que norteiem caráter.

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    2. Blog do Parsifal também é aula de filosofia, moral e cívica.

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    3. em erudição e capacidade de abstração o nobre politico ganha de mim por 10 x 0 , ou quem sabe, por 7 x 1...
      admito que forcei a barra ao falar em estar escandalizado. Na verdade, carreguei nas tintas por causa da selvageria que reina nesse pais, onde a integridade fisica não é respeitada.
      Eu penso que há demais maniqueimo nesse texto seu sobre carater e principios, embora haja sinais de muito talento. Eu fico tonto quando há muitos substantivos abstratos. Para contraponto, cito o que me disse um sujeito que tem um irmão que é delegado de policia: "todo mundo é bandido, eu sou bandido, tirem a policia, as leis, a justiça, que eu também sou bandido, vc também é bandido." Com esse voce, ele se referia a mim, mas se aplica a toda a população, segundo ele.
      No fim de semana fiquei por algumas horas procurando um link para mostrar um programa de tv que vi , há tempos atras, onde um brasileiro relata a segurança num pais distante onde ele mora, e como eles conseguem chegar a essa situação de segurança. mas não encontrei. Talvez eu tenha visto no programa "o mundo segundo os brasieliros" ou no programa do amaury junior. Nesse programa, o brasileiro feliz mostrava seu carro com as janelas abertas e celular no banco, e dizia que podia deixar a janela aberta por horas com o celular em cima do banco que ninguém roubava. Pelo jeito, nesse pais roubar automovel nem pensar.
      Mas como conseguem que seja tão seguro? Fazendo o oposto de tudo que pregam os entendidos no brasil. Para ladrões, a pena é 37 chibatadas. Mas os detalhes é que são importantes. Essas chibatadas não são dadas as escondidas, as autoridades não negam que os bandidos levam chibatadas, muito pelo contrario. Essas chibatadas são dadas em prar publica, justamente no horario de maior movimento na rua ! (Que diferença com o brasil, onde tudo o segredo de justiça.) A ocasião de maior movimento é as sextas-feiras, na saida da mesquita, a praça fica bem em frente. Assim, todos veem e ficam mais resistentes a tentação de delinquir.
      Acho que essa filosofia pode ser adaptada para o brasil. As chibatadas podem ser substituidas por outra coisa.

      Parsifal, o senhor nunca pensou em instituir taxas e impostos sobre os presidiarios? Eu penso que para visitas e outras comodidades deveria haver cobrança de taxa ou imposto. Eu sei que os advogados dificilmente aceitarão isso, mas é preciso sair dessa situação de selvageria.

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    4. O texto é meu, as teorias não. Elas são a dualidade filosófica ocidental que está em todos os códigos legais e morais: exatamente o maniqueísmo. E o culpado das cores foi Maniqueu mesmo, e ai daquele que ousar desdize-lo, pois o maniqueísmo é o que convalida teologicamente o cristianismo.
      Mas veja que eu vario: há frestas na dualidade, quando “permito” que o bem se misture com o mal (quem inventou isso foram os chineses, que elaboraram o delicioso porco agridoce, misturando sal com açúcar). E eu “inventei”, ainda, a fuga do maniqueísmo: a ausência total de princípios e caráter, portanto, nem só de dualidades vive a erudição.
      Mas, como não quero que você fique tonto, deixemos de abstrações, embora eu ache que tudo isso é tão concreto que nos dirime a vida.
      O tal delegado confunde alhos com bugalhos, pois leis não existem para impedir violência, mas para punir quem a pratica. Fique tranquilo, a ausência de leis não o transformará em um bandido, apenas o estado não teria como puni-lo caso você delinquisse e de, fato, o caos seria bem pior do que é hoje.
      Não se iluda, novamente, com a literatura referente, ou com as comparações aderentes. São prenhes os depoimentos de "como é perfeito o mundo fora do Brasil”. É fato que o nosso aparato de segurança é ineficaz e arcaico, mas não é fato que o resto do mundo é algo parecido com o Paraíso na Terra.
      No mundo do brasileiro feliz alhures, a criminalidade também é um fato: basta averiguar quantos levam chibatadas todos os dias porque deliquem, mesmo sabendo que ficarão sem o couro das costas. O que previne crimes é investimento em justiça social e nisso, de fato, o Brasil está longe de ser justo, tanto que está longe de ter uma criminalidade controlada.
      A criminologia não se resolve com o reducionismo de importar varas: teremos o espetáculo que você deseja, como todos os dias os fieis os têm na saída das mesquitas (porque lá se delinque), cortaremos mãos, braços, enforcaremos, e não veremos os índices serem arrefecidos, porque o criminoso não considera a pena no momento de delinquir e sim as suas próprias circunstâncias, e ver a punição não impede a delinquência, porque isso é como AIDs: eu acho que nunca vai acontecer comigo.
      Não é possível cobrar taxas sobre pessoas. Os parentes que os visitam, como todo cidadão, já pagam taxas e impostos até quando compram lenço de papel para chorar a desdita.
      É certo que quando nos vemos cercados por insegurança somos tentados a soluções radicais, mas a história é prenhe em exemplos de que a opção pelo radical leva ao tribalismo, como o que reina, por exemplo, naqueles países onde dão chibatadas em praça pública nos delinquentes.

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  4. Melhor filme do ano! Assistirei pela segunda vez também.
    Ricardo

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  5. Francisco Màrcio25/05/2015 21:38

    Quanto ao filme, eu nada tenho a declarar. Quanto a aula filosófica, estou tonto e nem dramim dá jeito...

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    1. Pois é. Tinha um filme nessa estrada...

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