03/03/2014

Putin não recuará da Crimeia e os EUA não têm tutano para expulsa-lo de lá

> No século 19

De 1853 a 1856 o Reino Unido, a França e a Sardenha uniram-se ao Império Otomano para enfrentar o Império Russo, que descia aos Balcãs à caça de posição estratégica no Mar Negro e no Mediterrâneo. O conflito protagonizou a Guerra da Crimeia.

A coalisão represou os russos na Crimeia, onde eles mantinham a frota do Mar Negro: foi o trágico Cerco de Sevastopol.

Shot002

O czar Alexandre II assinou, em 1856, o Tratado de Paris, abdicando das suas pretensões nos Balcãs, mas seguiu estocando os inimigos até obter passagem no Bósforo e no Dardanelos, o que lhe deu muque para quebrar o Tratado de Paris e fazer novas incursões nos Balcãs: foram as Guerras Balcânicas.

Com a Revolução de 1917, a Rússia anexou as repúblicas periféricas formando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Após a Segunda Guerra Mundial expandiu seus domínios até o centro de Berlin, inaugurando a Guerra Fria.

Shot003

Com a implosão da URSS, a Rússia devolveu a soberania ucraniana, mas fez questão de manter a sua frota do Mar Negro estacionada em Sevastopol, na Crimeia, pois assim mantinha a península ao seu manejo.

Shot004

> No século 21

Moscou não abrirá mão da Crimeia até que tenha certeza da segurança estratégica da sua frota do Mar Negro, que além de vital à Moscou, custou muito sangue, para que a Rússia levante as âncoras das suas belonaves fundeadas em Sevastopol.

Shot005

A questão não é a anexação da Crimeia, mas como reagir se Putin aproveitar para estender seus tentos à Kiev, a título de restabelecer a “legitimidade democrática” ceifada pela deposição do presidente Viktor Yanukovych, afinal é sob tal signo que os EUA invadem países mundo afora e a Rússia nunca se meteu.

A OTAN aconselhou Kiev a não reagir, pois um disparo rumo aos russos seria a ignição da tomada de Kiev: a Ucrânia não tem muque para aguentar 30 minutos de contenda com os russos e a OTAN não se atreveria a um confronto direto com Moscou, no Mar Negro. 

Shot006

O Ocidente tem estreita margem de manobra na marcha, pois antes de consequências marciais, a querela poderia fazer faltar gás no norte da Europa, que o importa da Rússia ou de países que o entregam através de dutos dominados pelo Kremlin.

Ainda não é possível afirmar que a Europa vive uma situação parecida com a tomada da Tchecoslováquia, por Moscou, em 1968, depois dos arroubos da Primavera de Praga, mas todo o cuidado é pouco para não pisar em minas.

O poderio russo é limitado e não se compara com as forças que se podem aliar contra ele, mas é certo que nas bordas dos seus domínios, é muito difícil lutar com eles sem arriscar um confronto que o mundo evita desde a Guerra Fria.

8 comentários:

  1. Tudo teatro. Interesses obscuros estão por trás desses rumores de guerra.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os interesses não são obscuros. São claríssimos: manutenção de poder estratégico pela Rússia, tentativa de mudança desse poder pelo Ocidente, e pressão da industria bélica de ambos os lados.

      Excluir
  2. Parsifal;

    Muito interessante. Após ler o seu post, procurei saber mais sobre as históricas disputas travadas pelo controle dessa ilha belíssima. Após a derrota dos turcos imposta pela marinha russa, uma grande aliança foi tratada com o ocidente, para a retomada desta, que resultou numa num massacre dos russo (não ponho os nomes para não dar a impressão de que sou conhecedor do assunto). Você que provavelmente conhece o lugar (confio na sua milhagem) pode me dizer como é ver o mar da sacada cai-não-cai daquele prédio de pedras no topo da elevação da ilha.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Na verdade a Crimeia, embora pareça, não é uma ilha e sim uma península, pois é ligada ao continente, no caso a Ucrânia, por um minúsculo istmo.
      Embora eu tenha passado pela Ucrânia e por Kiev, como estávamos a rumo de Moscou, não descemos até a Crimeia, portanto não conheço o local, mas como sou aficionado por grandes e decisivas batalhas que mudaram a história do mundo (no meu mapa pessoal de pontos de grandes batalhas, está marcado a visita já feita a 112 campos, e quando você vai ao local é impressionante como nunca mais esquece os nomes e anos), ainda devo a mim mesmo uma visita à Crimeia, pois a península foi palco de grandes labutas entre a Rússia e a coligação dos impérios britânico e otomano, com a França, Sardenha e ainda, de quebra, uma ajuda tática do Império Austríaco.
      A batalha à qual você se refere, que matou cerca de 6 mil russos, deve ter sido o confronto da coligação com a Rússia, na margem do Rio Alma, que ficou conhecida como a “Batalha de Alma” (que nada tem a ver com “alma” em português).
      Se você já esteve em Paris, uma das muitas pontes da cidade é a Ponte de l'Alma, construída em homenagem a esta batalha, mas que acabou recebendo milhares de visitantes diários após a morte da princesa Diana, que ocorreu exatamente embaixo do túnel da ponte: o carro espedaçou-se em uma das colunas de sustentação da ponte.
      Em tempo, se você leu a postagem toda e teve a curiosidade de aprofundar o seu conhecimento sobre o tema, não pode mais dizer que desconhece o assunto e não estaria sendo presumido em citar os nomes dos quais tomou conhecimento, pois conhecimento é exatamente isso que você fez. A curiosidade é o alteres com o qual a inteligência se exercita.

      Excluir
    2. Parsifal;

      Sim não é uma ilha. Acho que me deixei levar pelo belo cenário de ilha que deve ser tal qual, com exceção de que na Criméia é possível chegar dirigindo. Embora turismo lá nestes tempos não seja algo tão relaxante e convidativo quanto seria até pouco tempo atrás.

      Excluir
  3. Luiz Mário de Melo e Silva04/03/2014 21:18

    O sistema econômico capitalista faz a guerra para vender a paz com o único objetivo de salvá-lo da crise.

    ResponderExcluir
  4. O Senhor poderia citar os 112 campos de batalha? Também gosto de história, em especial a segunda grande guerra.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É uma lista extensa para postar agora, pois não lembro todos os locais e batalhas de cabeça, embora lembre imediatamente se alguém disser o nome de uma. As da Segunda Guerra não foram as "melhores". As da Primeira, as romanas, as napoleônicas e as de Alexandre foram aquelas que pautaram toda a ciência da guerra até hoje.
      Mas você acaba de me dar uma ideia de postagem. No próximo feriado longo, vou pegar as minhas anotações no mapa e fazer um post sobre o assunto.

      Excluir

Comentários em CAIXA ALTA são convertidos para minúsculas. Há um filtro que glosa termos indevidos, substituindo-os por asteriscos.