24/11/2013

Orlando Silva, o cantor das multidões

Não é possível contar a história da MPB sem dedicar um especial capítulo a Orlando Silva, o carioca do Engenho de Dentro que ficou nacionalmente conhecido como o “cantor da multidões”.

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> Francisco Alves alçou Orlando Silva ao sucesso

Orlando Silva, depois de trabalhar como estafeta, office boy – quando sofreu um acidente, ao saltar de um bonde, o que lhe obrigou a ter a metade do pé direito amputado - sapateiro, vendedor ambulante e cobrador de ônibus, foi alçado ao sucesso por outro grande cantor brasileiro, Francisco Alves.

Orlando foi apresentado a Francisco Alves pelo compositor Bororó (Curare), que lhe meteu dentro do carro de Alves e pediu que ele cantasse: ao ouvir o vozeirão, Alves decidiu lançar Orlando no seu programa de rádio.

Desde a primeira apresentação na Rádio Cajuti, Orlando Silva foi ao sucesso e chegou à glória arrastando multidões por onde ia.

> O cantor das multidões

Os fãs alucinados faziam com que as suas apresentações desviassem o trânsito nas imediações, e o carro que o conduzia era acompanhado por batedores. Policiais e seguranças o conduziam do veículo ao teatro, ou rádio, onde se apresentaria, o que não impedia que fãs lhe rasgassem as vestes para guardar as tiras como relíquias.

O apelo popular de Orlando Silva era tamanho, que o locutor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Oduvaldo Cozzi, colocou-lhe o aposto de "o cantor das multidões". O aposto, em 1969, veio a ser o título de um belíssimo documentário, dirigido por Oswaldo Caldeira, sobre a vida do cantor.

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Orlando Silva foi o expoente de um gênero musical que sofre um gradual processo de extinção: a música poesia, bem talhada, com métrica e sonoridade perfeitas.

Ele foi o intérprete de um tempo no qual cada música tinha uma história que a inspirou, e como aquelas histórias se repetiam nas vidas de milhares de brasileiros, a identificação era imediata: os poetas, compositores e intérpretes cantavam amores e, principalmente, amores perdidos. E quem nunca perdeu um grande amor?

> Interpretações perfeitas

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Não é possível escolher uma interpretação de Orlando Silva como a melhor: ele era o máximo em todas. Ouçam, como exemplo, a sua interpretação de “Risque”, composta pelo magnífico Ary Barroso, e vejam como a impostação de voz e o compasso com a orquestra eram primorosos:

"Creia
Toda quimera se esfuma
Como a brancura da espuma
Que se desmancha na areia"

Longe da glória que alcançou na primeira metade do século XX, praticamente legado ao ostracismo pela onda musical puramente comercial que tomou conta do Brasil e do mundo, um ataque cardíaco calou Orlando Silva em 1978, aos 63 anos.

9 comentários:

  1. Belíssimo Parsifal. A voz dele lembra a de Nelson Gonçalves.

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    1. Não nessa ordem. Era a voz de Nelson que lembrava a dele. Mas há diferenças que não são sutis entre os estilos. Orlando era mais grave que Nelson e cortava melhor os finais (Nelson tinha que alongar os finais para não se trair pela gagueira), além de entrar exatamente no compasso em quaisquer circunstâncias (observe como ele entra perfeito depois do back vocal na música postada).
      Orlando, também, sabia mudar o timbre de uma música para outra, o que Nelson não conseguia. Outra característica de Orlando, que o diferenciava de Nelson é que aquele costumava começar um trecho, na deixa da orquestra, mais baixo e agudo e terminava, para dar a deixa para orquestra, no grave. Nelson fazia o oposto. Mas os dois foram os maiores intérpretes da MPB, no gênero que defendiam.

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  2. Francisco Marcio24/11/2013 21:41

    Deputado, acabei de pegar o IPad para lhe cobrar nossas cantilenas dominicais ( ser Deputado é moleza, já blogueiro...). E Vossa Excelência antecipou-se magnificamente. Assim sendo, só me resta agradecer e desfrutar.

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    1. Que nada, ser blogueiro e fácil e barato. Difícil mesmo é ser deputado, que precisa passar por uma tal de campanha que é milhares de vezes mais caro e mais trabalhoso do que escrever um blog.

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  3. Realmente há notórias distinções vocais entre Orlando e Nelson, todavia, como você disse em seu blog o cantor das multidões "caiu no esquecimento" e o "metralha" não, ao contrário até o final de sua vida cantava, fazia duetos, certamente é o mais lembrado, é a voz desse cancioneiro tão expressivo e bonito.

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    1. É fato, o Nelson fez sucesso até o fim, mas o Orlando não teve apenas sucesso: ele sentiu o gosto da glória.

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  4. Haroldo Fernandes28/11/2013 08:40

    Só agora me atentei e revisando as postagens mais antigas em seu blog deparei com a postagem que o nobre Deputado Parsifal Pontes postou sobre esta figura ímpar que foi Orlando Silva “o cantor das multidões”. Aquele foi um período musical muito rico “a Época de Ouro da Música Brasileira”. E se justifica porque dele podemos destacar Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Gilberto Alves, Araci de Almeida, Emilinha Borba entre outros grandes cantores, dá gosto reviver esse tempo. Aliás, Eu já revivo um pouco da minha infância e adolescência lembrando a vitrola de casa tocando muito sucessos nas vozes desses cantores famosos, tive uma referência que foi meu saudoso Pai Santiago Fernandes um grande colecionador de discos desse período da música brasileira muito sucesso nas vozes desses cantores famosos. Parabéns deputado!

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    1. Obrigado Haroldo. No meio do barulho que se faz hoje em dia dizendo que é música, só nos resta reviver os tempos idos.

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  5. Afirmar que a voz de Orlando Silva lembra a de Nelson Gonçalves chega a ser uma heresia. Muito pelo contrário... Nelson é quem sofreu influência de Orlando Silva, o conhecido “cantor das multidões”. Sua voz de tenor fazia de Orlando um verdadeiro intérprete da música brasileira. Passeava dos agudos aos graves sem a menor dificuldade. Sua técnica de interpretação foi única. Não se tem registro de outra performance igual a sua. Orlando pertencia à chamada “época de ouro” da MPB, nos idos de 30, 40 & 50, que escreveu uma das mais gloriosas paginas da musica. Faz-se necessário o resgate desse artista para que as novas gerações conheçam suas primorosas interpretações, sempre acompanhada pela orquestra Odeon, conduzida pelo talento do gênio e maestro Radamés Gnatalli.

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