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Ritual de passagem

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Desde as primeiras cenas do “Levante de Junho”, compreendi que ali não se reivindicava a revogação de um aumento de R$ 0,20. Tratava-se de não mais coonestar ter chegado a R$ 3,20.

O crescendo vitimou quem leu os eventos com lentes conservadoras, onde um grupo credenciado entrega uma extensa pauta e se dá por rogado com um ou dois pontos atendidos.

Causou-me espécie acusarem o levante de inconsequente por ser difuso, pois foi exatamente a difusão que me deu a certeza de que estávamos a presenciar uma ruptura. Como é que não viram que surgira uma onda e que a repressão a tornaria em um tsunami?

> E por que não estar?

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Na sexta-feira (14) se estabeleceu a rede neural do movimento e ele se transformou em um só em todo o Brasil, com as mesmas características: ausência de pontos específicos tradicionais e solidez monolítica.

Observei as redes sociais e somei as confirmações de presença nos eventos: mais de um milhão de pessoas. Uma quantidade dessa não entra em sintonia sem uma sólida conexão neurológica: o movimento era difuso na pauta, mas convergente nas causas.

A fala de uma moça, na segunda-feira (17), deixou-me claro que a colmeia se estabelecera:

Repórter: Por qual motivo você está aqui?

Moça: Eu não sei por que estou aqui, mas eu não tenho nenhum motivo para não estar.

Pronto! Eis o que conectou aquele milhão de pessoas: a vetustez do imensurável. A falta de medidas é uma ignição de revoluções.

> Não foram pacíficos

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É hipocrisia afirmar que os eventos foram pacíficos. A imprensa e os políticos que fizeram do “pacífico” um mantra, estavam a implorar uma alvura que eles nunca providenciaram: como não sabem, ainda, o que o monstro que saiu da jaula come, repetem que as suas coroadas cabeças não têm bom paladar.

O movimento foi violento: quebrou vidraças, arrancou postes e tocou fogo em veículos. Mas a fogueira maior foi a incineração de paradigmas. O relacionamento entre os representantes e os representados foi reformulado e isso não se faz ecoando salmos gregorianos: as gargantas secariam sem que o status quo virasse uma só orelha para escutar o canto.

Quando a massa se torna monolítica o organismo que a liga providencia a sua parte invasiva e a infantaria não chega com flores pois, infelizmente, flores não vencem canhões: todas as rupturas derramam sangue, suor e lágrimas.

> Divórcio das ruas

As instituições brasileiras estavam tão divorciadas das ruas que foi necessário quebrar algumas vidraças para que as ruas se fizessem ouvir. Não se trata de justificar a violência, mas de lhe constatar a fatalidade nessas ocasiões.

Quem não está entendo o que ocorre está perdendo um belíssimo momento da história do Brasil. Há um rito de passagem: a democracia brasileira sai da puberdade e entra na adolescência e a nossa democracia não chegará à maturidade sem os arroubos da juventude. O sistema representativo está consolidado, o que agora se inaugura é a busca da legitimação do exercício representativo.

> Não acabou

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Revogaram-se os aumentos, a PEC 37 saiu de pauta. Acabou? Não. A pauta vai muito além disso e não cabe em folhas de papel. Não tem prazo, pois não é um intervalo e sim um processo.

E quem tem cabeça que cuide de mantê-la sobre o pescoço, pois como afirmou Victor Hugo, “em tempo de revolução, cuidado com a primeira cabeça que rola. Ela abre o apetite ao povo.”.

Comentários

  1. É impressionante o silêncio do Jatene quanto a essas manifestações. A Dilma deu a cara a tapa e falou ao país. E o governador? Será que ele pensa que não estão falando com ele? Ou será que ele, como Gilberto Carvalho, ainda tenta entender o que está acontecendo?

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  2. E a sua cabeça, deputado ? Está segura ?

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  3. Belíssima reflexão, Parsifal.
    Parabéns!
    Charles Alcantara

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  4. Belíssima reflexão, Parsifal.
    Parabéns!
    Charles Alcantara

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  5. Francisco Márcio20/06/2013, 11:59

    Tomara que eu esteja enganado, mas após esse rebuliço, infelizmente tudo voltará como dantes no quartel de Abrantes.
    dobrarei-me com entusiasmo se estiver equivocado.

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    1. Depende da definição que você dá aos processos sociais. Está claro que se iniciou um e, como eu disse na postagem, não há prazo e nem pauta para isso, mas, idem, não há volta aos status anterior.
      Observe que os saltos históricos, para compreensão didática, têm um ciclo de 300 a 400 anos. Apenas começamos um.

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  6. Nilson Ricardo20/06/2013, 16:40

    Deputado, concordo plenamente com o sr. quando diz que: "todas as rupturas derramam sangue, suor e lágrimas". Posso estar equivocado, mas acho que manifestações pacíficas não conseguem resultados. Onde houve tumulto e violência, houve resultados quase que imediatos. Aqui em Belém, onde a manifestação foi cheia de ternura, os governantes e parlamentares continuam tranquilos e deitados em berço esplêndido. Infelizmente, a violência e o tumulto nas manifestações parece ser um mal necessário.

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  7. Ronaldo Gomes20/06/2013, 21:00

    Novamente deputado, sua reflexão é a melhor e mais desprovida de outras pretensões que já li. Tenho total tranquilidade de acompanhar suas assertivas.

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  8. Assusta-me a pauta difusa. Sem proposta, o "movimento" existe pelo simples ato de movimentar - "arte pela arte" vá lá que seja, mas "protesto por protesto" é complicado. Enquanto discutia-se a tarifa, havia algo claro : embora os vinte centavos escudassem queixas muito mais amplas, havia ponto de negociaçao, havia uma meta, um lugar para chegar, um símbolo. Agora o que há? Vi um rapaz com um cartaz pedindo "nova Constituição", li um manifesto contra cartão de crédito e temo que isso beire a histeria...
    Anna

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    1. Anna,

      O protesto não é pelo protesto. E há proposta. Como eu venho opinando, não é possível analisar o movimento com lentes tradicionais: não é possível esperar uma pauta enumerada, pois ela é sim, difusa mas não é inexistente.
      Não há ponto de negociação porque o movimento é de ruptura e desconsidera as estruturas orgänicas: é uma revolução e revoluções não têm pontos específicos. O seu ponto pode entrar na pauta, por isso quem quiser pontear algo basta escrever em um cartaz e ir pra rua.
      O movimento não beira à histeria: a histeria é uma das suas características. É que nós estamos acostumados a ver histeria no carnaval, nos campos de futebol, de torcedores na rua após a vitória, ou derrota, do seu time, nas igrejas adorando Deus etc. Mas não estamos acostumados aos atos cívicos de histeria e como nos sentimos em posição defensiva, nos consideramos ameaçados.
      Passada esta histeria, vem o período de sistematização e cabe às instituições, se tiverem ouvidos para ouvir o que tudo isso falou, sistematizar a pauta (até a do cartão de crédito) e iniciar o processo de depuração do que está podre na República, ou a histeria voltará, mais forte, pois esses processos só acabam quando terminam e só terminam quando o último ponto da pauta for atendido.
      Não há prazo para isso, mas a fera observará se as providências estão sendo tomadas.

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    2. Parsifal;

      Também sinto falta de alguns objetivos neste movimento todo. A corrupção é uma coisa muito grande e complexa, o povão não têm uma ideia precisa das pautas necessárias para começar a haver mudança. Enquanto não for pressionado também o judiciário, os corruptos têm como certa a proteção dos numerosíssimos juízes amigos. Como pode um sujeito consumir dezenas de milhões de reais em verbas públicas para deixar um entrave de concreto no trânsito de Belém, decorado por obras de ferro que estão largadas e futuramente serão removidas para um ferro velho que as arrematará por centavos de real o quilo em um leilão. Enquanto o Duciomar estiver fora da cadeia, esse movimento não deveria acabar.

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  9. Quando as manifestações ganham o tom do "contra tudo o que está aí", para mim, perdem o propósito e a proposta. Porque o "tudo que aí está", o velho com que se precisa romper, ao menos em uma democracia, é "culpa" minha, sua, do menino com o cartaz e de qualquer um maior de 16 anos.
    "Ah, mas o voto nao tem sido eficaz". Então o que seria? Isto não faz parte do debate. Os atos sao contrários às estruturas estabelecidas? Mas como sequer saberemos isso? A mim, nao parece que haja reflexão neste sentido, nao; somos nós que, esforçando-nos para entender, atribuímos causas e efeitos. No entanto, se uma destas tentativas de compreender resultar mesmo na "depuração" que o senhor coloca, será a mais maravilhosa consequência, que a moça do pedido de descontos e fim do cartão de credito, talvez, jamais sonhara.

    Anna

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    1. Os processos revolucionários (todos) são “contra tudo o que está aí”, ou não seriam movimentos de ruptura. O decorrer da história, e a forma como “tudo o que está aí” se relaciona com a sociedade civil depois do rompimento da bolha é o que delimita o andar das mudanças, desde o redirecionamento das despesas públicas até o estabelecimento de regras menos extorsivas ao cartão de crédito. Isso pode levar 10, 20 ou 30 anos, pois as mudanças sócio-políticas são lentas, mas o importante é vermos que o processo ocorre.
      Insisto que quem tentar ler o que ocorre com os parâmetros tradicionais não vai entender o que está acontecendo. Ou você entra na neurologia do levante e recua até a sua gênese (que é em como se formaram as relações políticos-governamentais pós-ditadura) ou não será possível sistematizar o que ocorre nas ruas.
      Tudo o que nós aprendemos de movimentos de massa não serve para o que está ocorrendo porque os movimentos de massa contemporâneos, em todo o mundo, estão sendo protagonizados por uma geração em tudo diferente; a geração que se agrega no mais difuso meio que a sociedade já conheceu: as redes sociais. Eles pensam diferente, agem diferente e são diferentes. Eles podem, instantaneamente e ao mesmo tempo, estudar, ouvir música, conversar em um chat e atualizar o perfil no facebook, ou em mais de uma rede social. O Brasil tem 20 milhões de perfis e cada um é uma impressão digital com personalidade própria e causa própria e todos estão interligados. É isso que está nas ruas.
      Nas espere ordem nesse caos, pois ele é a ordem e nós precisamos nos esforçar por entender essa nova ordem, pois desses 20 milhões sairão quem vai comandar o país daqui a 20 anos, ou menos. Eles irão errar como nós erramos e irão se acomodar como nós nos acomodamos, mas em parâmetros diferentes dos nossos.
      Quem não entende os processos históricos é arrastado por eles.

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