20/01/2017

Carlos Alberto Filgueiras

Todo mundo conhece o falecido ministro do STF, Teori Zavascki. Como poucos conhecem o empresário Carlos Alberto Filgueiras, que juntamente com Zavascki faleceu no acidente, é dele que trata essa postagem.

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Carlos Alberto Filgueiras, 69 anos, dono do Hotel Emiliano, um dos mais exclusivos de São Paulo e do Brasil, não era um desconhecido no Sul do Pará.

De temperamento afável, aos conhecidos da sua época no Pará dava descontos generosos no seu hotel boutique aos que, mesmo com o generoso desconto, se dispunham à hospedagem cuja diária média é de R$ 1,2 mil.

Por uma vez, fui um dos que desfrutei do desconto de 50% e ainda ganhei, além do desconto, um upgrade para uma suíte.

Carlos Alberto, que labutava no ramo da construção civil em São Paulo, na década de 70, chegou ao Sul do Pará na leva de almas que a Serra Pelada sugou para a região em uma das maiores corridas do ouro do mundo contemporâneo. No auge da cava (1983) 100 mil homens suavam atrás do vil metal.

Foi nessa época que Carlos Alberto chegou na Serra comprando o que chamávamos de “porcentagem”, que era um percentual de um “barranco”, que por sua vez era um pedaço previamente delimitado de chão onde se cavava atrás de ouro. Foram as cavas dos barrancos que fizeram aquele enorme abismo de cerca de 100 metros de profundidade que se vê nas fotografias.

Os compradores de “porcentagens” - eu comprei algumas, já contei isso aqui, e não ganhei um grama de ouro - conversavam entre si para saber qual estava dando produção e foi em uma dessas trocas de informações que conheci Carlos Alberto.

Ele comprou “porcentanges” mas aproveitou a efervescência do Sul do Pará, para também montar um serraria, pois as coisas em São Paulo, dizia ele, “não estavam fáceis”.

Alguns dizem que Carlos Alberto chegou “quebrado” no Sul do Pará, o que não era verdade. Embora com dificuldades eventuais, ele já era parte da média elite paulistana e trafegava bem na high society. Ele viu a Serra Pelada como oportunidade de negócios, e como para todos nós que trafegávamos pelas cavas, no fundo, aquilo era um cassino, apostávamos. Alguns ganharam outros perderam.

Carlos Alberto foi um dos que ganhou, tanto na cava quanto na madeireira que montou, pois tinha os contatos certos para venda no Sul do Brasil.

Saiu da Serra Pelada e do ramo madeireiro do mesmo jeito que chegou: não mais que de repente. Deve ter intuído que já ganhara dinheiro suficiente no jogo e estava na hora de deixar a banca: um homem inteligente.

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Foi com parte do dinheiro ganhado no Sul do Pará que Carlos Alberto comprou um terreno em uma das áreas mais exclusivas de S. Paulo, a Rua Oscar Freire, para, em sociedade com o rei Roberto Carlos, fazer um flat, modalidade de empreendimento imobiliário que estava surgindo com força no Brasil.

As vendas do flat encalharam, pois quem tinha dinheiro para pagar alto já tinha imóveis na pauliceia. Foi quando Carlos Alberto resolveu fazer a limonada. Estava surgindo o ramo exclusivo dos hotéis boutique: surgiu o Emiliano, uma joia da hotelaria de nicho, com obras de arte desde o lobby até os apartamentos.

O conceito do Emiliano foi um sucesso depois exportado para o Rio de Janeiro, onde também fundou um Emiliano.

O ramo hoteleiro acabou por potencializar a mais marcante característica de Carlos Alberto: o prazer de desfrutar as coisas boas da vida que o dinheiro pode comprar e a afável hospitalidade que ele pode oferecer.

E assim ele vivia até ontem (19), quando a indesejada das gentes lhe arrebatou juntamente com Teori, um amigo que, segundo a imprensa, ele fez no Emiliano, e mais duas mulheres que estavam no fatídico voo.

Aliás, as maledicências cometam que as mulheres se tratavam de duas acompanhantes o que não é verdade. A verdade, posta pelo próprio Grupo Emiliano, é que Carlos Alberto estava com uma inflamação no nervo ciático e por isso levou a sua massoterapeuta, Maira Panas, uma jovem de 23 anos.

A outra mulher no voo era a mãe de Maira Panas, Maria Hilda, 55 anos, que sabendo da fama de Don Juan de Carlos Alberto, só permitiu que a filha fosse se a levasse junto.

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Meus sentimentos à família Zavascki. Minhas condolências aos familiares e colaboradores do Grupo Emiliano, que devem estar inseguros quanto ao futuro, pois o seu fundador era a alma da empresa.

Mas fiquem tranquilos, pois Carlos Alberto, como muitos outros que faço referência, não criou uma moda hoteleira. Ele criou um estilo e o estilo sempre sobrevive ao seu criador.

14 comentários:

  1. Parsifal, você é um grande contador de histórias. Ninguém jamais saberia que o dono do Emiliano foi "garimpeiro" no Pará.

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  2. Ele é que tava certo em aproveitar. Tem gente que tem e vive na miséria.

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  3. Parabéns pela postagem. Sempre de modo simples, direto e profundamente bem posto, nos contando histórias.

    Aquele seu professor.

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  4. tambem lembro dele,as vezes jogava umas partidas de domino com nestozao e rodofo no barraco deles la na rua do sereno.que a terra lhe seja leve.

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    1. É meu caro, como eu disse, a Serra era um jogo. Até de dominó. Mas como cantou o Gozanguinha, "começaria tudo outra vez...". Mesmo sem ter bamburrado eu gostei muito da aventura. O que eu paguei valeu a experiência pela Rua do Sereno.

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    2. grande parsifal,vou te dar uma ideia.escreva um livro contando as aventuras da serra pelada. eu acho que o brasil tem muita curiosidade sobre o que se passou ali naquele pedacinho do pará.

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    3. Já tem um tempo que escrevo um livro de memórias e Serra Pelada está lá.

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    4. Publica logo esse livro, nao quero abreviar o seu encontro com a indesejada, mas o senhor anda muito de avião e está chovendo muito ultimamente em Belem.

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    5. Fique tranquilo. O livro não viaja de avião.

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  5. Quedas de avião: Azar & sorte.

    Passadas as primeiras horas de perplexidade e muita gente dizendo nas ruas que 'mataram o homem', me adianto em pensar sobre o outro lado da moeda - o dos que se dão bem com tragédias dos outros.

    Nunca é demais relembrar que o seu líder político Jáder Barbalho está entre os que mais lucraram com sinistros aéreos neste país e... quem sabe... continue lucrando.

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    Uma teima entre avô, neto e eu (no meio):

    Minha antipatia por redes sociais já está se tornando um assunto para urgente 'terapia de adaptação'. Fui tomado de espanto quando vi um jovem mostrar no smartphone todo um acervo ideológico sobre a viabilidade do Brasil ter seus problemas resolvidas através do PCC. Pelo que pude inicialmente verificar, o Marcola já é um novo ideólogo político para muitos não-bandidos.

    Hummm hummm!

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    Chuvas, mosquitos e demandas:

    Desde que o nosso 'herói do controle das endemias' tirou umas férias - me refiro ao fenômeno El Niño - Belém voltou a hospedar uma incrível nuvem de mosquitos transmissores das terríveis dengue, zika e chikungunya - com uma iminente possibilidade de surto de febre amarela.

    Enquanto isso o prefeito Zenaldo Coutinho continua alheio ao problemas dos lixões da cidade, das ruas sem drenagem, dos esgotos entupidos e dos canais por construir. E a prevalecer a tradição desta cidade, de prefeitos em segundo mandato, essas coisas vão devagar, quase paran...


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    Fraude do concurso da PM:


    Em matéria de seleção de pessoal, o governador Simão Jatene despachou o Pará de volta aos anos 70, quando tudo era 'peixada', as repartições só faziam 'concursos internos', o apadrinhamento político e o nepotismo controlavam tudo, chegando ao cúmulo de isentar o ungido de de ser, de fato e de direito, o técnico que necessitado; uma imoralidade que a ALEPA perpetuou em seu PCCR, em que para exercer cargo de advogado e receber como tal, não precisa ter estudado direito, ou ainda, aproveitar a chance de fazê-lo nos dez anos seguitnes a contratação.

    Concurso público honesto foi coisa introduzida por Hélio Gueiros, Edmilson Rodrigues e Ana Júlia Carepa. Depois desses períodos o poder passou a exalar o bodum dos esquemas de favorecimento e não consegue realizar concurso limpo de jeito nenhum.

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  6. O Carlos vivia a vida de vencedor. Aquelas ilhas de Paraty estão lotadas de pousadas.

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  7. Parabens pela postagem... Uma aula.

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  8. Francisco Márcio21/01/2017 12:21

    Por óbvio, o Sr. Emiliano, o Sr. Teori, podem andar com quem quer que os valha, mas V.Exa acredita mesmo nesse conto de massoterapeuta, de mãe que foi junto para proteger e tudo mais...?

    Sei que nada tenho haver com isso, mas é só para efeito de raciocínio...

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    1. A moça era uma massoterapeuta e a senhora era a mãe dela. Todos nós, todavia, fazemos algo paralelo a nossa própria profissão. Aí cai na sua asserção, com razão, de que podemos andar com quem nos valha e fazer o que nos apetece.

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