19/07/2016

O tiro pela culatra

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O que hoje é a Turquia já foi um dos maiores impérios da história, cujo estabelecimento inaugurou a Idade Moderna, com a tomada de Constantinopla pelos otomanos em 29 de maio de 1453, selando o final do Império Romano do Oriente.

Mais exatamente, a vitória otomana sobre Constantino XI, não somente lhe finou a dinastia oriental, mas sepultou o que foi o próprio Império Romano latu sensu, pois o Império Romano do Ocidente já havia caído há quase um milênio.

Com a queda de Constantinopla, o Império Otomano vicejou por mil anos e nada deveu aos romanos: no seu auge englobou a Anatólia, o Oriente Médio, parte da África e do sudeste europeu, estendendo-se desde o estreito de Gibraltar, passando pelo mar Cáspio e golfo Pérsico, indo estabelecer fronteiras com o que hoje é a Áustria, a Eslovênia, o Sudão e o Iêmen.

O Império Otomano foi a força muçulmana que mais perto chegou de esfacelar o poderio da Europa Ocidental, mas acabou adoecendo do mesmo mal que matou o Império Romano: cresceu tanto que caiu sobre o seu próprio peso, não conseguindo agilidade suficiente para vencer seus desafetos na Primeira Guerra Mundial, e foi reduzido, na derrota, ao que hoje é a Turquia.

Assim como Wladimir Putin deseja reencarnar a figura do Czar no que foi o Império Russo, que em termos territoriais foi o terceiro maior de toda a história, o atual presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, que comanda a Turquia, com crescente autoritarismo, desde 2002, acalanta o sonho de se transformar em um sultão, estabelecendo um califado para chamar de seu.

O mais forte indício de que o autoritarismo fez parada na cabeça de Erdogan é que ele tange a Turquia, desde que venceu a sua segunda eleição, de um país laico, em um novo estado islâmico, e tem seguido à risca a receita de Putin rumo à concentração de poder.

Foi contra isso que facções militares, que debalde já haviam tentado em 2013, se insurgiram no início dessa semana, protagonizando uma desastrada quartelada que, na tentativa de derrubar Erdogan, o fortaleceu, pois, o povo turco respondeu que prefere um ditador eleito do que uma ditadura imposta por tanques.

[Essa circunstância, aliás, de governos autoritários estabelecidos pelo voto popular, é um solido índice de uma lacuna eventual na democracia liberal como a concebemos hoje, e precisa ser resolvido pelo mecanismo legal da limitação de mandatos, tal qual fizeram os EUA, como cláusula pétrea constitucional]

O resultado da patacoada militar turca, além das dezenas de mortes causadas, é que os doidivanas encurtaram o caminho para Erdogan alcançar o sultanato, pois ele, à guisa de expurgar a parcela insurgente do militarismo inconstitucional, trata de expurgar todos os que se opõem ao seu intento: prendeu mais de 200 oficiais, cerca de 2 mil juízes, inclusive membros da Suprema Corte, e todos os que ele imagina que o possam insultar na implantação do califado.

Para completar a obra da sua reação, Erdogan quer imitar Stalin, que colocou vários dos seus generais em fila e os fuzilou, e já manifestou ao Parlamento, onde ele tem maioria, que deseja restabelecer a pena de morte no país, exatamente para terminar o serviço.

2 comentários:

  1. Parsifal;

    Li alguma coisa sobre um leilão de lotes de 'papéis podres' dos bancos estatais cujo total iria além de 24 bilhões e que teria sido arrematado por várias financeiras alcançando a casa dos 400 milhões.

    Passado o leilão, tenho ouvido ali e acolá pessoas aflitas com inquietantes cobranças destas financeiras, algumas (como é o caso da OMNI) chegando a ameaçar diariamente através de mensagens e telefonemas os credores com execuções e penhoras. O que chama atenção é que também estão incluídos juros e multas.

    Outro aspecto estranho nestas cobranças é que os bancos estatais respondem que não se originaram em empréstimos não quitados, mas em 'serviços de cestas' absolutamente não previstos em alguns tipos de contas, ex. contas salário, como cheque especial, etc.

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    1. Sim, esta pratica é antiga. Os bancos vendem seus recebíveis duvidosos por 5% do valor de face e os compradores, depois partem para cima da liquidação, e se receberem 10% da face já tiveram um lucro de 100%.

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