21/05/2015

O voo do dragão que jamais deita em berço esplêndido

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O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, chegou ao Brasil com a carteira recheada de dólares, bilhões de dólares.

Embora a presidente Dilma aproveite a visita politicamente, Li Keqiang atravessou o mundo para fazer negócios: é a macroeconomia chinesa lançando os dados na América Latina, onde tem significativos interesses estratégicos.

Confiante na recuperação econômica do Brasil e sabendo que uma alavancagem do PIB nacional nos próximos cinco anos significará pesados investimentos em infraestrutura, a China quer se instalar no camarote antes do show começar.

Quer ainda a China, com a decisão de transferir entre US$ 80 e US$ 100 bilhões para o Brasil, criar condições para preencher o fosso empresarial na construção pesada, causado pela derrocada das principais empreiteiras nacionais no furacão da Lava Jato.

O Governo Federal faz bafo insinuando que o aporte chinês é uma compensação ao corte orçamentário de cerca de R$ 80 bilhões, em 2015: a presidência tirou com uma mão, mas cuidou para que a China desse com outra. Isso não resiste a um fato: os bilhões da China não chegarão em 2015, mas o corte orçamentário já chegou.

Li Keqiang doura a pílula: "Além de exportar, gostaríamos de instalar fábricas e bases para produzir, gerando empregos locais". Palmas! Mas o clap-clap é protocolar: a China precisa de mercados externos, pois o seu consumo interno engrola na expansão da sua planificação econômica.

Há, por outro lado, uma irreplegível pressão comercial para que o dragão cuspa parte do fogo no pasto onde busca estoque para a fornalha, ou as barreiras buscarão nivelar os preços Made in China através dos impostos de importação, como forma de proteger a indústria doméstica.

E como a China contornaria a pressão? Produzindo localmente, e aí se explica a bondade de Li Keqiang em gerar “empregos locais”. Captaram? Só mesmo os que acreditam que Simão Jatene trouxe o grupo Cevital ao Pará é que acreditam que uma economia de 10 mil anos meteria prego sem estopa em uma embarcação derivada.

E prosseguiu Li Keqiang, referindo-se a um salamaleque do governador do Rio de Janeiro: "O governador falou sobre como as pessoas estavam satisfeitas com os trens do metrô que fornecemos, de alta qualidade".

Somos uns cínicos, mesmo (refiro-me a nós, políticos): os usuários ficam satisfeitos com um metrô que preste bons e eficientes serviços, não importando serem os trens e os trilhos da China ou do Iraque.

A visita fechou-se com um trilho de ouro: a sonhada ferrovia transoceânica, ligando o Atlântico ao Pacífico, rasgando o continente do Brasil ao Peru.

Outra bondade chinesa? Não, outra conveniência estratégica e um espetacular valor agregado na logística chinesa instalada a 17 mil quilômetros de Pequim (isso é que é um país que sabe o que quer: 10 mil anos de história, lembram?).

Com a transoceânica a China não mais precisará contornar o continente, pelo norte ou pelo sul para transportar as montanhas de minérios que estamos vendendo para ela.

Principalmente ao norte, onde se obrigam os panamax a esgueirar pelo Canal do Panamá, debaixo do nariz dos EUA, com quem a China, desde sempre, mantém uma Pax Armada.

Livres do dito canal, os chineses poderão romper os limites dos panamax e construir leviatãs marítimos para transportar o triplo do que fazem hoje por unidade, cortando na mesma proporção o custo do transporte.

Tudo bem, a ferrovia, que só sairá do papel se a escatológica legislação nacional não atrapalhar – a neurologia chinesa pode desistir quando terminar de ler o primeiro parágrafo dos tomos que regem o licenciamento ambiental – trará benefícios logísticos ao Brasil, também. Mas vamos deixar os chineses fazerem tamanha festa por meros US$ 100 bilhões em investimentos?

Claro que como o santo é de terracota, devemos cuidar do andor, pois as barbas de Confúcio não se derramam apenas no Brasil e na América do Sul, mas em igual voracidade na África Oriental. Todavia, é hora do Brasil devolver valor à política externa e não tratar temas desta envergadura com o amadorismo de quem vai tomar café na Argélia.

Ou tratamos de empinar a espinha dorsal da política externa com gabarito, ou não vamos nos curar da escoliose que nos acomete desde que enterramos o Barão do Rio Branco, afinal, como ensinou o Confúcio “não são as ervas más que afogam a boa semente, e sim a negligência do lavrador.”

12 comentários:

  1. Texto0 completo. Erudito e simples ao mesmo tempo.Parabéns Deputado

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  2. Parabéns pelo texto.

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  3. Frase do dia

    Se governo do PT, em seus 13 anos, tivesse trabalhado mais parcerias com China e EUA, ao invés de Venezuela e Sudão, o Brasil estaria próspero e não falido”

    Deputado Arthur Virgílio Bisneto, PSDB-AM

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    1. O Brasil não está falido. É a sétima maior economia do mundo, com PIB praticamente similar à da Russia e Alemanha, a sexta e quinta maior do mundo respectivamente, e todas as projeções indicam que assim devemos permanecer até 2020, quando poderemos passar a Rússia.

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    2. O comentário do anônimo acima deve servir como exemplo sobre a viagem do governador Simão Jatene (PSDB) à Argélia. Vale lembrar que o Maranhão nosso vizinho, poderá receber investimentos para implantação de uma siderúrgica vindos de empresários chineses.Vai funcionar com minérios extraídos da Serra dos Carajás, no Pará.

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  4. http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/vinci-vende-fatia-na-equatorial-por-r-700-milhoes

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  5. Francisco Marcio21/05/2015 13:45

    A metralhadora está girando, girando... acertou o pescador (ops!) governador, a presidente(a), Renan... O que me admira é a lealdade, ou seria andolatria, ao seu chefe, sobre esse, nem com tortura chinesa saí um pio... Falta assunto do chefe? Fale sobre a prescrição, dos setenta anos... É só uma sugestão...

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    1. Já lhe disse. Se elogios não puder fazer aos meus amigos, mal jamais falarei deles, pois os poucos que tenho não tenho a menor intenção de perder e não tenho mais idade para fazer novos, dado o tempo que exijo para aceitá-los no meu restrito clube.

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  6. Parsifal, excelente análise das "bondades da China". Para quem tem a mão de obra mais barata do mundo é um grande negócio aplicar em infra estrutura em um país como o Brasil, sobretudo na parte ferroviária O " capitalismo de mercado aberto" que está fazendo Marx e Engels tremerem em seus túmulos, precisa alocar a sua mão de obras em países continentais como o nosso.Como nós temos leis trabalhista que presrvam a dignidade dessa força laborial, temo que em futuro próximo, a China não conseguindo trazer o seu excesso populacional, comece a criar dificuldades nos acordos alinhavados. De nossa parte temos de rezar para que no trajeto das ferrovias, não sejam encontrados machados ou similares de índios, nem pererecas em extinção.

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    1. É meu amigo Ronaldo. Os nossos amigos de olhos puxados precisam matar dois dragões por dia para sobreviverem, mesmo na maior economia do mundo, mas com um per capita e uma distribuição de renda sofríveis. Precisam encontrar dragões para matar alhures e facilitar o transporte da carne do bicho para casa.

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  7. uma brincadeirinha:
    cliente de restaurante na china: garçon, caiu uma mosca na minha sopa
    garçon: pode comer, não vou lhe cobrar, fica como cortesia da casa.

    tenho lido que os chineses querem fazer obras usando 100% mão de obra chinesa, passando por cima de uma lei que exige 2/3 de mão de obra brasileira para todas as empresas.
    penso que o brasil não deveria ceder muito nesse aspecto.
    para construir rodovias, ferrovias, pontes, deveriam utilizar mais o exercito, inclusive convocando as multidões de militares reformados, se a lei permite.

    roberto

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  8. Joercio Barbalho21/05/2015 21:13

    Creio que poderíamos pensar na relação comercial China x Brasil. Quaisquer números apontam de forma bastante acentuada a diferença atual sobre este item. A nossa exportação para a China é bastante elevada no que diz respeito às commodities, ou seja , produtos que não agregam valores, apenas produtos primários como soja e minérios, com preços baixíssimos. Os números de nossos produtos manufaturados que agregam valores que exportamos para aquele país são quase zero. Enquanto isto o contrário é verdadeiro importamos em grande número produtos industrializado e quase zero de commodities. Isto lembra as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos nos anos 50 e 60. Quanto a Marx e Engels, que fiquem por lá e que nos tragam a filosofia de Confúcio ainda exercitada em grande parte daquele país. Poderemos estar trocando Tio Sam pelos Dragões.

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