16/05/2015

A Lucille calou para sempre

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Na década de 20, os campos de algodão do Mississippi e as minas de carvão do Kentucky eram um dos pastos onde os negros ganhavam o pão de cada dia, nos EUA.

A canção “Sixteen Tons”, de autoria controvertida, narra a dura vida de um mineiro para prover alimento a si e à família. O refrão de Sixteen Tons, infelizmente, ainda ocorre no Brasil, pasto eventual para trabalho similar à escravidão em alguns “empreendimentos”:

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Nesse quadro, no Mississipi, em 1925, nasceu Riley Ben King, em uma fazenda de algodão, onde, aos 9 anos, já colhia o produto para se sustentar.

Os cantos religiosos de origem negra, que nos EUA se chamam “spirituals”, foram trazidos para a América junto com o comércio de escravos.

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Os spirituals se acabaram chamando “worksongs”, porque os negros trabalhavam nas plantações cantando-os como forma de lamentar saudades e apelar por liberdade. Contam os cronistas da época que as “worksongs” eram um peculiar sonido dos vales do Mississipi.

A palavra “blue”, em inglês, tanto pode significar a cor azul quanto o substantivo tristeza e o adjetivo triste. A expressão melódica dos negros do sul dos EUA acabou dando origem a um dos mais significativos gêneros musicais do mundo: o blues.

Ben King nasceu com o dom de elaborar blues, que então já era um gênero, embora ainda restrito à cultura negra, conhecido em todo os EUA, e aos 22 anos, com uma guitarra tosca como bagagem e US$ 2,5 no bolso partiu para Memphis, onde a música negra era aceitada e difundida. Memphis, Nova Orleans e Nashville são consideradas as três cidades mais musicais dos EUA.

"Num sábado à noite ouvi uma guitarra elétrica que não estava a tocar espirituais negros. Era T-Bone1 interpretando "Stormy Monday" e foi o som mais belo que já ouvi na minha vida. Foi o que realmente me levou a querer tocar Blues", declarou B.B King em uma entrevista, em 1970.

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A partir da chegada a Memphis, Ben King começou a tocar a sua guitarra nos mais diversos locais da cidade, trocando a colheita de algodão pelo blues limpo e melodiosamente agudo que tirava das cordas.

Logo o estilo de Ben King começou a ser difundido no burburinho da Beale Street, uma zona musical típica de Memphis. Uma composição que ele nominou de “Beale Street Blues” fez sucesso nas rádios locais, que passaram a chamar King de “Blues Boy King", mais tarde, simplesmente B.B King. Assim nasceu uma das lendas do blues.

B.B King foi um desses seres humanos predestinados. Aos 26 anos tocou o seu primeiro sucesso e aquele que o alçaria à imortalidade: "Three O'Clock Blues" (os ponteados desse lamento são um colosso). Doravante, acostumado, desde tenra idade, a 16 horas de trabalho nas plantations, tocou a sua guitarra em shows pelos EUA à média de 275 concertos por ano (!).

Onde quer que houvesse um pequeno público, como em prisões (onde ele se apresentava sem cobrar), passando por teatros de guetos, salões, clubes, hotéis, até os mais prestigiados recintos nacionais, B.B King se apresentava, pago ou não, e isso o tornou um dos mais respeitados ícones do etos norte-americano.

Ele se sobressaiu da seleção dos melhores do blues, sendo um dos melhores dentre os melhores, porque dentro do gênero criou o que só os gênios são capazes de fazer: B.B King criou um estilo de tocar o blues.

A sua presença de palco, os seus trejeitos (se o proibissem de fazer caretas, que acompanhavam coreograficamente os acordes, ele não conseguiria tirar uma nota sequer) e o som limpo (ele não desperdiçava notas) poderiam ser reconhecidos pelo mais eventual aficionado de blues.

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Como foi elaborador de um estilo, fez escola no rock e no jazz, pois criou uma ponte entre os gêneros: os maiores guitarristas de rock de todos os tempos, como Bloomfield, Collins, Buddy Guy (tão bom quanto o mestre), Freddie King, Jimi Hendrix, Johnny Winter, Albert King, Eric Clapton (outro excepcional), George Harrison (Beatles. O solo de “While My Guitar Gently Weeps” é B.B King revisitado por Harrison) e Jeff Beck lhes seguiram a técnica musical.

B.B King foi a quintessência do blues.

Em 1949, ainda no raiar da sua carreira, King se apresentava em Twist, no Arkansas. Era costume que no centro dos salões, durante o frio, se acendesse um barril meio cheio de querosene, para aquecer o ambiente. No meio da festa começou uma briga e o chafurdo entornou o barril.

Seguindo os demais, King evadiu-se do recinto que ardia em chamas, mas ao lembrar que deixara a guitarra que lhe custara US$ 30, voltou para resgatar o instrumento, uma Gibson acústica, no que teve êxito.

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Morreram duas pessoas no incêndio e, no outro dia, King soube que a briga, entre os dois homens, tinha sido por causa de uma mulher chamada Lucille. Desde então, todas as guitarras que King teve chamaram-se Lucille.

Na madrugada de sexta-feira (15), a ceifadora cobrou-lhe o tributo. Considerado o rei do blues e tido, até na quinta-feira (14), como o maior guitarrista de blues vivo, ido aos 90 anos, ele deixou um legado de 60 anos de carreira, nos quais arrebatou 16 prêmios Grammy, gravou mais de 50 discos e apresentou-se em 90 países, inclusive o Brasil, em 2012.

A Lucille calou para sempre.

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1. Aaron Thibeaux Walker (1910-1975), o primeiro músico de blues a usar uma guitarra acústica amplificada. Foi considerado o 67º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone.

6 comentários:

  1. Caro Parsifal,

    Obrigado pela belissíma postagem!

    Cap ludogero

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  2. Parsifal, B. B King realmente foi um "blues man" fora de série, assim como também o foi o lendário Robert Johnson, um dos pioneiros do genero, que faleceu, prematuramente, no final dos anos 30. Robert Johnson recebeu comovida homenagem do fã declarado de blues, o famoso Eric Clapton, no excelente documentário "Songs for Robert", no qual o musico, as vezes só, as vezes com sua banda, executa todas as musicas (Em torno de vinte e cinco) de R. J. É o caso de se dizer : Vale pela qualidade e não pela quantidade musical. O blues 'Love in Vain" de Robert Johnson, é um standard deste genero musical. "Love in Vain" é música obrigatoria em qualquer seleção de Blues que se preze.O filme americano "A encruzilhada" é um filme musical sobre blues em que Robert Johnson é citado.

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    1. Sim, RB foi um dos melhores entre os melhores.

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  3. Parsifal.

    Esse homem é simplesmente um ícone que nossa geração teve a honra de conhecer ainda em vida. Sua influência não se limita ao Blues, pois o estilo dele se alastrou para todos os tipos de música. Os riffs curtíssimos e geniais, seus contrapontos milimétricos e incisivos, foram copiados e recopiados, lidos e relidos por proeminentes guitarristas, muitos dos quais figuram no ranking da Billboard como os melhores do mundo.
    É a prova viva de que a humildade sempre acompanha o gênio. Me lembro que há alguns anos a MTV Americana o entrevistava sobre os modernos estilos de guitarra. E ele, como se fosse um mero aprendiz, começou a elogiar alguns nomes, dizendo que gostaria de "tocar igual a eles" (???). Interessantíssima a postura dele diante da música, tocando muitas vezes sentado, pois a idade já não permitia as estrepolias de outrora. Mas sempre um meninão, brincando com sua Gibson, contagiante e magistral.
    Gostaria que as novas gerações pudessem conhecer profundamente a história e a obra dele; que pudessem beber nesta fonte.
    Fará falta, demais, na música de qualidade.

    Ademir,
    Parauapebas

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  4. O solo de While My Guitar Gently Weeps é do Eric Clapton! A Execução tb! Ele que gravou nos stúdios Abbey Road.

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    1. Há equívoco na sua afirmação. Toda a composição é de George Harrison. Eric Clapton não compôs o “choro da guitarra”, ele apenas participou, segundo Harrison, de ensaios na execução.
      Segundol o produtor George Martin, Harrison se queixava que os demais Beatles não deram a atenção devida à música e concordaram em gravá-la no “The White Album” (1968), mas a tocaram com “certo desdém”.
      Foi quando Eric Clapton entrou na história. O próprio Clapton conta que Harrison se queixou para ele da falta de interesse de Paul e Lennon pela música e o convidou para participar da gravação, o que Clapton recusou dizendo que o estilo dele era outro (tinha uma ponta do blues limpo do B.B King) ao que Harrison respondeu que a música era dele e ele poderia gravar do jeito que quisesse.
      Clapton foi ao estúdio, tocou a música e imediatamente Lennon e Paul mudaram de opinião. Mas Clapton não mudou nota alguma na composição de Harrison, apenas emprestou a mão.
      Nem Clapton, nem Harrison, nem Martin jamais afirmaram, todavia, que a gravação de While My Guitar Gently Weeps no “The White Album” foi ponteada por Clapton. Mas é certo que, doravante, Harrison foi definitivamente influenciado pelo estilo de Clapton.

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