03/11/2013

Serra Pelada

Assisti o drama “Serra Pelada”, dirigido por Heitor Dhalia e protagonizado por Juliano Cazarré, Júlio Andrade, Sophie Charlotte, Wagner Moura e Matheus Nachtergaele.

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O cinema brasileiro, com custo muito menor que o americano – “Serra Pelada” consumiu R$ 10 milhões – começa a entregar ao espectador boas produções, e embarca a singularidade de mostrar cortes da história atual do país, no caso, um detalhe do que foi o maior garimpo a céu aberto do mundo.

> A corrida do ouro

A corrida à Serra Pelada começou na segunda metade da década de 70, quando Genésio da Silva encontrou a primeira pepita. Há a versão de que ele cavava o chão para plantar banana, o que é puro romantismo. Na verdade, desde a prospecção de Carajás, soube-se que ao Norte da jazida de ferro havia rastros de ouro, e Genésio, assim como outros poucos que por lá fizeram cavas, não estava plantando banana e sim garimpando.

É verdade, todavia, que o enxame de garimpeiros que se fizeram à Serra, lá pousaram depois do achado de Genésio.

> Febre alta

Eu fui um dos que se fez à Serra Pelada. O frescor da juventude, temperado com a febre do ouro, inculcou-me a expectativa da fortuna. Depois de três dias lá, e da compra de percentuais em barrancos “quase” para chegar no filão, voltei imaginando o que faria com todo o dinheiro que ainda ia ganhar.

> Clandestinos

Quando nos fizemos à Serra – eu e mais 8 ou 10 amigos de Tucuruí - o Governo Federal já nomeara como interventor o Major Curió, que de fato colocou alguma ordem naquele caos, e não mais era possível entrar indiscriminadamente: Curió fez do garimpo um gueto, e depois dele todos os que lá penetravam o faziam clandestinamente.

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Finava-se a tarde quando saímos de Marabá até a trilha que nos levaria à cava. Por volta das 20h, noite escura, iniciamos a caminhada em mata fechada, até a Serra. Aos 22 anos aquilo, para mim, foi um passeio.

Os mateiros proibiam ligar lanternas e ninguém podia conversar, para não alertar os “jagunços do Curió”, espalhados pela floresta para pegar os clandestinos. Eu acreditei e compenetrei-me. Hoje sei que era troça e uma maneira de lhes valorizar o trabalho, que era cobrado por cabeça.

O Sol ainda dormia quando entramos no vilarejo onde cerca de 30 mil garimpeiros fizeram morada, à beira da cava. Atamos as redes, na “Pensão do Amadeo”, por volta das 5h. Eu adormeci sonhando com a fortuna.

> Visão inesquecível

Foi apenas 1 hora de sono: acordei com um burburinho peculiar. Enrolei a rede, engatei a trouxa à escápula e fui escovar os dentes na pia, fora da estalagem. Quando levantei a vista fiquei estupefato com o que se descortinou: iluminados pelo Sol ardente, centenas de milhares de homens subiam e desciam a cava, com sacos nas costas. As escadas rotas angulavam pouco mais de 90 graus: era o famoso formigueiro. Uma visão bíblica. Mais de 30 anos depois, e muitas milhas corridas, nunca mais vi algo parecido.

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A imagem comparativa que me veio à mente foi a construção das pirâmides do Egito. Só que ali havia uma pirâmide invertida.

A juventude é uma beleza e seus impulsos são romanticamente fantásticos: eu queria experimentar a sensação de carregar um saco daqueles, cava acima. Naquele instante, eu já me sentia um garimpeiro. Seria aquilo a tal maldição do ouro?

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Os meus três dias em Serra Pelada vocês lerão nas memórias que escrevo, mas lhes adianto que não recuperei um tostão dos quase US$ 200 mil que investi na compra de percentuais de barrancos que dariam ouro “em mais uma semana”.

Hoje vejo aquela viagem como o turismo mais caro que fiz na vida, mas como um dos mais proveitosos e únicos, mesmo porque nem eu, e nem ninguém mais, poderá fazê-lo jamais.

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A última vez que vi Serra Pelada ainda em operação, a febre serenara e apenas alguns recalcitrantes labutavam por lá. Sai melancólico. Não pelo investimento que perdera totalmente, mas por saber que assistia ao enterro de um sonho de mais de 100 mil pessoas que por ali passaram.

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11 comentários:

  1. Deputado, contr-me como conseguiu investir US$ 200 mil aos 20 anos, mesmo tendo nascido a luz de lamparinaomo o senhor mesmo diz aqui no blog.

    Os meus três dias em Serra Pelada vocês lerão nas memórias que escrevo, mas lhes adianto que não recuperei um tostão dos quase US$ 200 mil que investi na compra de percentuais de barrancos que dariam ouro “em mais uma semana”.

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    1. O fato de ter nascido às lamparinas, filho de um caboclo que começou a vida como porco d´água, não significa que eu vá falecer à luz de um lampião. Faço questão de contar as minhas origens por sentir orgulho de sair de onde vim e chegar onde estou.
      Embora não precisasse, pois quando eu tinha 8 anos o meu pai já era um dos maiores fazendeiro do baixo Tocantins, naquela idade eu comecei a ganhar trocados, mergulhando no Tocantins para apanhar as castanhas que caiam dos paneiros que descarregavam no entreposto de Tucuruí.
      Aos 15 anos, de férias em Tucuruí, ganhei um bom dinheiro levando, no barco motorizado do meu pai, por uns 20 dias, um bando de gringos que mediam a profundidade do rio e fincavam umas réguas na vertical, nas beiradas. Eu não tinha a menor ideia que ali começavam as obras da Usina de Tucuruí.
      Dez anos depois o presidente Figueiredo inaugurou a obra que custou US$ 10 bilhões, dos quais a metade circulou em Tucuruí. E você acha mesmo, que eu, que aos já 8 mergulhava, não ia pegar um pouquinho daqueles US$ 5 bilhões? Ou que o meu pai, que aos 16 pulava na Capitariquara com um cabo de aço nas costas para içar um barco, e no final da década de 70 já era um fazendeiro, ia também deixar passar aqueles US$ 5 bilhões sem pegar um pedacinho para ele?
      Fique tranquilo, a fortuna que eu fiz e que meu pai fez e nos deixou, não teve um tostão furado de política: o meu pai destetava políticos e política e ameaçava me dar umas rimpadas quando eu falava que queria entrar nela.
      Só entrei na política depois que ele morreu. Os US$ 200 mil que perdi na Serra foi um mero detalhe. Aos 28 anos, quando eu me candidatei a primeira vez, eu já tinha uma das maiores bancas de advocacia do interior do Pará, com 10 advogados, e tinha a conta das maiores construtoras do Brasil, que estavam em Tucuruí, além de dois dos bancos que lá estavam (Bradesco e Real) e de um dos maiores varejistas do Brasil, o Grupo Claudino, dono dos Armazém Paraíba.
      Quando vieram me convidar para ser vice-prefeito, fui consultar minha mãe. Ela me disse: “meu filho, tu estás bem, não precisas de meter ‘nisso’. Sabes o que vão dizer depois? Ninguém vai lembrar o que tu és e o que tu tens. Só vão dizer que tudo foi conseguindo roubando a prefeitura.”.
      Fui a dois tios, que já se foram (estou ficando preocupadíssimo, pois mais da metade da pessoas que me são caras já se foram e pode ser sinal que não demoro) e parecem que estavam, ambos combinados com a minha mãe. Mas eu acabei aceitando e hoje vejo que os três, e meu pai muito mais, tinham razão.
      Mas os detalhes, se você quiser saber, vai ter que comprar o livro. Não demora muito não: mais uns 10 anos eu publico. Se eu morrer antes Ann, ou as filhas, estão autorizadas a publicar 5 anos após eu ter ido. É que ainda não terminei.
      Nele eu conto, por exemplo, de como eu, e mais aqueles dois tios que já foram, ganhamos mais de US$ 1 milhão (eu dolarizei tudo há uns 10 anos porque com a troca de moedas e a inflação, eu perderia a noção de valores) apenas cavando buracos para plantar mangueiras durante a construção das vilas residenciais da Eletronorte em Tucuruí. E eu nem lá estava: à época fazia engenharia em S. Paulo e só ia nas férias. E de como ganhamos dinheiro locando carros para a Belauto que relocava para a Eletronorte. E de como... Bem, mas assim você vai acabar não comprando o livro.
      O Sul do Pará, meu caro, foi feito por gente destemida e trabalhadora. Os “forasteiros” fizeram, com as próprias mãos, mais de 30 cidades que hoje são pujantes. Conheço a história de cada grande fortuna feita no Sul do Pará, e 90% deles chegou com não mais que um par de calças com os bolsos vazios e a cabeça decidida a abrir fronteiras. E tiveram alguns caboclos paraenses que também saíram das lamparinas, embora eu ainda adore em casa, à noite, apagar tudo e acendê-las, para lembrar sempre de onde eu vim.

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    2. Parsifal, você não pode se queixar da política e nem, quando chegar a hora que você diz que está preocupado de chegar, dizer que não viveu a vida intensamente. Esse seu livro vai vender um bocado, pelo menos para nós aqui do Sul do Pará que temos vivido e convivido com você. Foi ótimo você ter entrado para a política se não você estaria longe daqui com certeza e nós não iriamos ter o prazer de ler coisas que já até tínhamos esquecido.
      Eu ouvi muito falar da Serra Pelada, mas embora eu seja aqui de Marabá, nunca fui lá nem nos tempos que você conta e nem agora.

      Manuel Alves, seu eleitor.

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  2. Parsifal, lendo a coluna Reporter Diario, todos os dias no Jornal Diário do Pará, verifico o enriquecimento sem causa do jornalista subscritor da coluna. Veja só, quando ele não utiliza o espaço do jornal com suas manifestacões aqui do blog, ele utiliza as manifestacões do Deputado Bordalo do PT. Assim, ser jornalista é fácil, talvez por isso que a RBA não valorize bem seus profissionais, vide a greve recente da RBA. A coluna Reporter Diario está no Control C, Control V. Literalmente.

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  3. E hoje? É verdade que a Colossos está contrabandeando ouro de Serra Pelada?

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    1. Não creio. A empresa não se arriscaria a tanto.

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  4. Francisco Marcio03/11/2013 22:19

    Deputado as vezes penso que Vossa Excelência tem 100 anos. Essa enxaqueca que vossa excelência reclama é pouco, parece que o Deputado não dorme.
    Sem adiantar muito - pro livro não perder a graça - Vossa Excelência subiu a escada com o saco nas costas ou só foi um investidor ( estilo Eike )?
    Mais um detalhe, um amigo disse-me que sabemos quando estamos ficando velhos: quando a quantidade de amigos/conhecidos mortos é grande. Sua contagem é grande? Preocupe-se.

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    1. Que nada. Apenas 55 bem vividos. Não perco tempo e comecei cedo. Não se esqueça que Alexandre, o Grande, tornou-se rei aos 20 e quando morreu, aos 33, já havia conquistado o Egito, a Báctria, atual Afeganistão, e já havia estendido o império macedônico desde os Bálcãs até a Índia e que Mark Zuckerberg, aos 25 já era bilionário e hoje, aos 29, tem uma fortuna de US$ 17 bilhões e, até o momento que eu faço esse comentário, a sua página no facebook conta com 20 milhões 393 mil e 636 seguidores.
      Claro que subi com o saco nas costas. Você acha mesmo que eu ia perder isso?
      É, eu já estou no saldo: mais da metade dos meus amigos já morreram. Por que você acha que eu preservo os que ainda restam (não falo mal de amigos nem sob tortura) com unhas e dentes?

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  5. KKKK eu adorei a "comparação" com o Alexandre kkk Eu sou igual ao senhor nesse aspecto: quando alguém se admira do número de vezes que eu casei, eu me comparo à Liz Taylor. hahaha

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  6. Muito bom deputado,cabeça erguida e olhos adiante, pois a felicidade não é algo fácil de se provocar.

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