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Morre Jerry Adriani um dos ídolos da Jovem Guarda

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Em 1967 cheguei a Belém, desde Tucuruí, para fazer admissão ao ginásio, um concorridíssimo vestibular prestado por quem acabara o curso primário, para conseguir vaga no curso ginasial.

Foi quando fui apresentado à televisão, que só começava a transmitir às 17h e saia do ar às 22h.

A TV Tupi apresentava um dos meus programas preferidos: um musical chamado “A Grande Parada” que, dentre outros artistas, era apresentado por Jerry Adriani.

O programa chamou-me a atenção porque para mim foi uma revelação ver o grande Jerry Adriani que eu só ouvia nos alto-falantes que o seu Manoel Seco, o dono do Bi-canal Sherazade, uma difusora que transmitia por fios por todo o centro de Tucuruí, comerciais e notícias entremeados com músicas: os “boca-de-ferro”.

Naquela época, final da década de 1960, Jerry Adriani estourava as paradas com “Um grade amor”, que constatei mais tarde ser uma versão de “I Knew Right Away”, de Alma Cogan:

Vindo ao mundo no bairro paulistano do Brás, em 1947, foi batizado Jair Alves de Souza. À época, o Brás era um bairro operário povoado por imigrantes italianos e isso influenciou a entrada de Jair na música: os seus dois primeiros discos foram gravados em italiano, em 1964.

Após o sucesso dos primeiros discos, já como Jerry Adriani, A TV Excelsior o contratou para apresentar o “Excelcior a Go Go”, onde, dentre outros nomes de sucesso na música, apresentavam-se “Os Incríveis”.

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Depois do sucesso do Excelcior a Go Go a TV Tupi o levou para apresentar “A Grande Parada”.

A esteira do sucesso de Jerry Adriani foi no movimento cultural brasileiro surgido no alvorecer da segunda metade da década de 1960, conhecido como Jovem Guarda, capitaneado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, que apresentavam um programa na TV Record (não lembro agora o nome).

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A Jovem Guarda não era apenas um movimento musical: mesclava música com comportamento. Ser da Jovem Guarda era um jeito de viver, por isso o movimento lançou moda e Jerry era um dos ícones do movimento.

E foi no final dos anos 1960 e início dos anos 1970 (a década de 1970 foi uma coisa...) que Jerry Adriani começou a cantar com uma banda que tinha entre os seus componentes ninguém menos que Raul Seixas. A banda era conhecida como “Raulzito e os Panteras”.

Dentre os muitos sucessos escritos por Raul para Jerry, está “Doce, doce amor”, que não faltava nos bailes da minha juventude:

Jerry Adriani foi da leva de cantores brasileiros que se consagrou em vários países. Venezuela, Peru, Estados Unidos, México e Canadá apresentaram o artista em várias temporadas, até que a Jovem Guarda, no final da década de 1970, deu sinais de fadiga e os anos 1980 começaram a sepultar o romantismo artístico.

Foi no estertor daqueles anos que conheci Jerry Adriani, em Tucuruí, em um show que ele foi fazer na “Boate do Zezé”, um empreendedor da noite que a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí levou para Avenida Lauro Sodré. Ali, todos os sábados, se apresentava um grande nome da MPB e eu era um dos maiores entusiastas das empreitadas. Depois do show, era comum ficarmos até se finar a madrugada conversando com o artista. Essa leva de artistas, dos quais Jerry fez parte, não eram estrelas que se trancavam nos camarins antes e depois do show. Eles interagiam e gostavam, mesmo, da noite.

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Em 2007, Jerry gravou o seu primeiro DVD. Foi no Canecão, a icônica casa de shows do Rio de Janeiro. “Jerry Adriani Acústico Ao Vivo” é uma joia que faz uma terna releitura dos clássicos sucessos da sua carreira. Abaixo, quatro minutos do show, começando pela belíssima “És o meu amor”, seguida por “Têm feitiço os teus olhos”:

 

Desde 07 de abril Jerry Adriani estava internado na UTI do Hospital Vitória, no Rio de Janeiro: um câncer o consumia.

Na tarde deste domingo (23), a família anunciou que a indesejada das gentes bateu-lhe à porta.

Jerry Adriani foi mais um desses seres humanos que se diferenciou como um menestrel de gerações. Que a terra lhe seja leve.

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