08/03/2016

Ugolino della Gherardesca e Marcelo Odebrecht

Na Itália do século XIII, o conde Ugolino della Gherardesca aliou-se ao arcebispo Ruggieri e tomou o comando da cidade de Pisa dos guibelinos.

No poder, Ugolino colocou-se a eliminar prováveis adversários futuros. Ruggieri, temendo que a espada lhe chegasse ao pescoço, usando o poder da Igreja, traquinou contra Ugolino, acusando-o de traição à Pisa em uma negociação com Florença.

Ugolino acabou sendo defenestrado por Ruggieri, que o mandou encerrar em uma torre, mais tarde chamada de “Torre da Fome”, juntamente com os dois filhos e os dois netos. Fechada a torre, Ruggieri determinou que a chave da prisão fosse jogada no Rio Arno. A pena era a fome, até a morte.

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Quando Dante Alighieri escreveu “A Divina Comédia”, descreveu o conde Ugolino cumprindo a danação a que fora condenado: roer o crânio do arcebispo Ruggieri, que todos os dias se regenerava, até “o final dos tempos”. Era Dante aplicando a lei do contrapasso: Ruggieri condenou Ugolino à fome e no inferno lhe servia de alimento eterno.

A narrativa de Dante que “ouviu” de Ugolino a agonia de ver os filhos e netos morrendo de fome na prisão, termina com a sugestão de que o conde, para esticar a vida, alimentou-se dos cadáveres daqueles (“Depois, mais do que a dor, pôde o jejum”). Isso fez surgir, na literatura fantástica da Idade Média, o mito de que Ugolino, de fato, praticara a antropofagia dos próprios filhos e netos, o que não é uma verdade histórica.

O ex-presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, preso há nove meses na carceragem de Curitiba, autorizou quem quisesse, no corpo diretivo da empresa, a fazer delação premiada, mas mantinha-se impávido na disposição de não apelar, ele mesmo, ao instituto, ou seja, houve-se condenado a morrer de fome, sem devorar ninguém.

Mas eis que das paredes da Procuradoria da República ouve-se, desde ontem (7) que Marcelo não resistiu à dor de estômago que a fome impinge e já mostra disposição de prestar depoimento sob delação premiada. É a sentença de Dante fazendo vera: pode mais o jejum do que a dor.

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Se isso lhe vai custar roer o crânio de alguém no nono inferno é tarefa para a morte, o certo é que o dito cujo não quer desprezar a vida na Torre da Fome.

E aí, sussurra-se pelos corredores da força-tarefa, que o sétimo selo se abrirá, pois são tão ruidosas as delações de Marcelo que, pelo que consta naquelas de Delcídio do Amaral, a própria presidente Dilma e o ex-presidente Lula, encarregaram-no de negociar a nomeação do ministro Marcelo Navarro, para o STJ, desde que esse se comprometesse a votar pela liberdade de Odebrecht.

Será que a Lava Jato, assim como a pena de Ugolino, só vai acabar “no final dos tempos”?

Um comentário:

  1. Parsifal se este neto abrir umas poucas só umas poucas páginas dos arquivos da família...muitos daqueles que hoje posam de bons moços também subirão a torre da fome. Preparemo-nos para desatinadas emoções.

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