08/10/2015

A tragédia do Haidar, dia 2

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O naufrágio do Haidar, pelas características da sua carga, é o maior desastre em águas fluviais já registrado no mundo.

A peculiaridade se completa quando o Haidar afundou em um porto limítrofe à áreas urbanas, o que requer uma operação de salvatagem com especificidades de complicada consecução.

O termo salvatagem foi inicialmente usado, em áreas de exploração petrolífera, para designar as medidas de resgate e manutenção da vida após um desastre, com o objetivo de minimizar ou evitar danos colaterais, mas que acabou se generalizando a toda operação de resgate em naufrágios.

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O dia de ontem (07), no gabinete de gerenciamento de crise instalado pela CDP em Vila do Conde, sob a coordenação da Marinha do Brasil e da Defesa Civil do Estado do Pará, do qual fazem parte a SEMAS, a Secretaria de Meio Ambiente do município de Barcarena, o IBAMA, a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, o Ministério da Agricultura, a Adepará e a Anvisa, além de órgãos observadores, foi de criticar um plano de contingenciamento, previamente elaborado, para que a efetiva ação não acabe por causar danos ambientais que o comitê quer evitar.

Como responsável objetiva pela operação de salvatagem, a armadora Global, segurada por um clube de resseguros na modalidade P&I (Protection and Indemnity), sigla em inglês para Proteção e Indenização, reuniu-se hoje, em Vila do Conde, com a CDP, quando foi notificada de que todas as despesas já feitas e a serem feitas pela autoridade portuária deverão ser ressarcidas, no que aquiesceu.

Na oportunidade, a CDP, juntamente com a SEMAS e a Defesa Civil, na presença de técnicos da Hydro e da Santos Brasil, que operam em Vila do Conde, ouviram de duas empresas que preparam planos de operação para a armadora Global, as alternativas para a salvatagem.

As duas empresas são a Smit Salvage e a Ardent Salvage, especializadas na modalidade, que têm em seu portfólio terem participado da operação de salvatagem do Costa Concordia.

O Haidar, segundo os mergulhadores contratados pela CDP na tarde de ontem (07), deitou-se totalmente no fundo do porto, não oferecendo riscos impeditivos para o início das operações de retirada do gado morto, cerca de 4,8 mil cabeças, e dos cerca de 600 mil litros de óleo armazenados nos tanques.

No momento do naufrágio houve vazamento de certa quantidade de óleo, que está aprisionado por redes de contenção. Também, na noite de segunda para terça-feira, moradores das redondezas, para retirar gado vivo que estava sobre o navio, abriram janelas nas redes de contenção. Isso causou fuga do óleo já contido, que foi parar em praias de Vila de Conde, cuja limpeza está sendo feita pela prefeitura de Barcarena.

Após a retirada do óleo da superfície, e de cerca de 50 cabeças de gado morto que estão contidas com o óleo, o que será feito hoje (08), o teatro estará pronto para o início das operações de retirada da carga morta e do óleo dos tanques.

A retirada do óleo é uma operação peculiar, mas que as empresas especializadas fazem com relativo conforto. O grande desafio da salvatagem, que em logrando sucesso, transformar-se-á em caso de estudo na parca literatura pertinente, é a extração, transporte e destinação das cerca de 3 mil toneladas de carga orgânica em processo de decomposição, em tempo mais curto possível e com o menor dano colateral possível ao meio ambiente.

A extração exigirá duas balsas com guindastes embarcados, para içar a carga que boiar no momento em que as grades das gaiolas forem abertas. A carga que não boiar, por estar presa no vaso, deverá ser expulsa por operações de abertura no casco, feita por mergulhadores com equipamentos específicos.

Para transportar a carga extraída seriam necessárias aproximadamente 300 carretas. Mas as carrocerias teriam que ser impermeabilizadas, pois a legislação não permite vazamento de material líquido decomposto em trajeto.

Na crítica dessa modalidade surgiu uma questão aparentemente intransponível: no Pará não há área de despejo licenciada para receber esse tipo de material, na quantidade estocada dentro do Haidar.

Outro plano de operação foi aventado, que é transportar, através de barcaças, o material até Manaus, que possui capacidade e licenciamento para incinerá-lo. Outra hipótese é transportar o material orgânico até alto mar e descartá-lo em pontos estabelecidos, o que é possível pela legislação internacional, pois se trata de carga biodegradável.

Isto tudo tem que ser resolvido até hoje (8) à noite, pois a SEMAS notificou os agentes envolvidos na ação, que as operações deverão iniciar em 24h sob pena de multa diária de R$ 200 mil ao dia.

A SEMAS também interditou o porto de Vila do Conde para movimentação de carga viva, até que a situação se tenha regularizado.

A parte final da operação será a retirada do navio que, segundo especulam os experts no assunto, não poderá ser reaproveitado.

Estima-se que a totalidade da operação, com a cobertura de todos os danos diretos e colaterais, não seja de custo inferior a US$ 200 milhões, o equivalente a R$ 800 milhões, o que será integralmente coberto pelo clube de seguradoras, cujas sedes estão em Londres e no Líbano.

7 comentários:

  1. Presidente, por esta teoria o grande culpado por este grande vazamento de óleo são os bois. Na verdade ninguem estava preparado por um desastre de tão grande magnitude.

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    1. Pode ser também o fazendeiro, que criou os bois.
      Sim, é verdade que ninguém estava preparado para um desastre dessa magnitude.

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  2. Tem que ver se foi feito algum estudo de estabilidade para fazer a alteração na embarcação. Qualquer coisa se se mude em embarcações pode comprometer sua flutuabilidade.

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  3. Quanto custa um navio desse Parsifal?

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  4. O preço não depende somente da tonelagem bruta, mas também do maquinário, tempo de uso e condições de conservação. Mas, grosso modo, em sendo um vaso armado em 1994, seu preço varia por bodas abaixo dos US$ 20 milhões, o que é 10% do avaliado para a operação de salvatagem, devido a complexidade do sinistro.

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  5. Senhor Parsifal, eu acho que a empresa responsável pelo navio e pela carga deveriam remanejar essa população que está sofrendo, pois o odor está insuportável nos arredores. Fora o risco de usar essa água, com o risco de pegar uma infecção cadavérica, pela decomposição do animais mortos, principalmente pela produção de cadaverina e putrescina, que são altamente tóxicos e perigosos para a saúde humana. O "mínimo" que ele poderiam fazer é pagar hospedagem para essa população!!

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  6. Dr. Parsifal mora no 28o andar de um predio em Belem, de lá, fora a fumaça que de vez em quanto vem da queima do ex-lixão do Aura, só se respira ar puro. Irão dizer os sabidos (barbalhos, jatenes etc) que respirar novos ares faz bem à vida.

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