04/06/2015

Corpus Christi e Tomás de Aquino

Por volta de 1240, Pantaleão de Troyes, arquidiácono do cabido de Liège, à época um dos mais importantes centros eclesiásticos do Sacro Império Romano, foi visitado pela freira agostiniana Juliana de Mont Cornillon, que lhe confidenciou visões de Cristo manifestando-lhe o desejo de que a Eucaristia tivesse celebração destacada.

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Em 1264, Pantaleão de Troyes já era o papa Urbano IV, quando lhe chegou a notícia de que durante a celebração da Eucaristia, em uma igreja de Bolsena, no exato momento em que o sacerdote partiu a Hóstia, dela se derramou tanto sangue que o corporal se encharcou.

Urbano IV ligou o ocorrido à confissão da freira anos antes e interpretou o milagre como sendo um signo do desejo de Cristo, manifestado à agostiniana. Imediatamente determinou que o corporal fosse trazido até Orvieto, então sede do papado, onde seria retido como relíquia da Igreja.

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O episódio da Hóstia que sangrou ficou conhecido como o “Milagre de Bolsena". O corporal (pano sobre o qual se põem o cálice e a patena) onde o sangue se derramou é a relíquia até hoje enclausurada na Catedral de Orvieto.

No trajeto entre Bolsena até Orvieto, sabendo do milagre, foi se formando uma enorme procissão. No caminho, os aldeões derramavam flores, para louvar o “Corpo de Cristo” que passava, representado pelo sangue no corporal. A procissão chegou em Orvieto em 19 de junho de 1264.

Em 8 de junho de 1264, Urbano IV editou a bula Transiturus de hoc mundo, onde determinava que uma vez por ano, toda a quinta-feira após a oitava de Pentecostes, fosse celebrado o Milagre de Bolsena com uma procissão onde estivesse presente o corporal: era ali instituída, oficialmente, a procissão de Corpus Christi.

Para a procissão de 1265, a primeira oficial, o papa Urbano IV encomendou à Igreja um ofício glorioso para ser cantado durante a celebração.

A composição vencedora foi a do então jovem dominicano Tomás de Aquino, intitulado Lauda, Sion, Salvatorem, cântico entoado até hoje na celebração de Corpus Christi, na Catedral de Orvieto, cuja construção foi também determinada por Urbano IV e em cuja nave norte está a Capela do Corporal, onde se guarda a relíquia do Milagre de Bolsena.

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O compositor do cântico, Tomás de Aquino é uma história à parte: foi o mais proeminente doutor da Igreja e ninguém o superou até hoje. Foi uma mente privilegiada a ponto de ser chamado de “o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios”.

Alguns dias depois que assumi o meu primeiro mandato de prefeito de Tucuruí, eu e um amigo, José Adão, visitávamos um depósito da prefeitura. Revistávamos objetos à esmo, desprezados pelo chão.

Ao largo avistei, jogados entre escombros outros, um monte de livros. Ao me aproximar dos livros, uns abertos, outros fechados, outros despedaçados, li, em um deles, o título em vermelho: “Summa theologica”.

Fui tomado por emoção ao ver naquele estado a obra prima de Tomás de Aquino. A Summa é a coluna mestra do tomismo e uma das mais efetivas bases da dogmática católica.

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Mas, além de tratar da natureza de Deus e das questões morais dos homens, A Summa foi também a principal obra filosófica da escolástica e fez o ser humano revisitar o racionalismo aristotélico, tirando-o das trevas eventuais do medievo. Tomás, sem imaginar isso, fez reflorir as bases de um método de aprendizagem que voga até hoje.

Virei ao Zé e exclamei alto, ao juntar um dos livros:

- Meu Deus! Olha o que eu achei aqui! A Summa theologica, de Tomás de Aquino!

Juntei os livros como quem bateava ouro. Consegui recuperar 12 deles. Naquele dia eu prometi a mim mesmo que faria a Biblioteca Pública Municipal de Tucuruí, onde seriam guardados aqueles livros. E fiz. Mas isso é outra história. Ouçam, abaixo, a composição de Tomás de Aquino para o Corpus Christi, a Lauda, Sion, Salvatorem.

"Lauda, Sion, Salvatorem,
Lauda ducem et pastorem
In hymnis et canticis"

3 comentários:

  1. Dr. Parsifal,
    Em 1975, trabalhei no antigo escritório da Estrada de Ferro Tocantins, cujo prédio foi repassado pela União para ser o Escritório Central inicial da empresa publica que iria gerir a construção da Hidrelétrica de Tucurui.Numa das salas, encontrei uma pasta recheada de papeis amarelados. Era uma escrituração contábil, da Contabilidade da EFT, anexada a notas fiscais e duplicatas pagas de compras de materais de manutenção feitas numa empresa de ferragens (já extinta), de Belem-PA. Não dando a devida importancia ao documento historico, deixei o mesmo onde estava, que depois foi jogado no lixo pela equipe de limpeza. Se tivesse guardado os raros documentos , hoje teriamos um registro documental da Ferrovia, posto que dela, praticamente, nada restou a nivel documental . Até os predios da mesma viraram estabelecimentos comerciais e, onde era o predio da Estação Central hoje é um Escritório de empresa publica fundiaria , com linha arquitetonica que nada lembra a principal estação ferroviária da extinta EFT.

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    1. Consegui catalogar algumas poucas relíquias da EFT e pretendo fazer um museu em Tucuruí com elas.

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  2. Acertado! Era isto o eu que devia ter feito na época, haja vista que o documento encontrado era de inestimável valor histórico e não lhe foi dado a devida importancia, tanto que foi jogado no lixo, pela equipe de limpeza, como um papel qualquer. Detalhe : Os documentos referencia eram datados do ano 1959 e a empresa fornecedora era a "Importadora de Ferragens", que acho que hoje já não existe mais.

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