09/04/2015

A Petrobras vista por um mestre em finanças corporativas dos EUA

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Aswath Damodaran, professor de finanças corporativas da “Stern School of Business”, da Universidade de Nova York, considerado um dos maiores experts em análise de retorno dos EUA, escreveu sobre a Petrobras, também um dos assuntos mais falados nas rodas de "valuation" do setor.

Afirma Damodaran que a Petrobras enveredou por uma trilha que a depreciou em US$ 200 bilhões, mesmo antes da queda do preço do petróleo, o que o levou a opinar que a empresa “é um exemplo perfeito de como destruir valor”.

"A maneira como a Petrobras vem sendo gerida desafia tanto o senso comum e os princípios básicos das finanças corporativas que, se eu fosse adepto da teoria da conspiração, facilmente aceitaria a ideia de que tudo isso faz parte de um plano diabólico para destruir a empresa", escreveu Damodaram.

A análise é de viés gerencial e não considera os episódios de corrupção que estão sendo apurados. Abaixo os principais pontos que, segundo Damodaram, fizeram a empresa perder valor de mercado:

1. A Petrobras investiu sem a menor preocupação com a qualidade dos investimentos e com o retorno deles, coisa primária na estratégia de valoração empresarial. Entre 2009 e 2014, a Petrobras intensificou suas despesas de capital e custos de exploração além de 35% das receitas, bem acima dos 15-20% investidos por outras empresas petrolíferas.

2. A Petrobras viu as suas receitas crescerem de US$ 17,4 bilhões em 1997, para US$ 135,8 bilhões em 2014, mas as margens de lucro caíram drasticamente, tendo o governo contribuído para este crescimento disfuncional, ao colocar pressão sobre a empresa para vender a gasolina a preços subsidiados.

3. O governo trata a Petrobras como uma empresa de serviços públicos e o seu fluxo de caixa é direcionado, desde a década de 90, para o pagamento de altos dividendos, o que não é recomendável para empresas em processo de crescimento disfuncional como ela experimentava.

4. Em 2010, a Petrobras levantou US$ 79 bilhões em patrimônio líquido, mas tem se tornado dependente da dívida e do seu financiamento. Como consequência, fechou 2014 devendo US$ 135 bilhões, mais do que qualquer outra empresa de petróleo do mundo.

Damodaran critica a governança corporativa da Petrobras, que protege os interesses do governo a qualquer custo, direcionando as ações empresariais e os investimentos para alavancar interesses políticos.

Afirma, Damodaran, que o valor das petroleiras tem maior relação com os preços do barril de petróleo do que com o capital imobilizado, e sugere que os erros gerenciais que levaram a Petrobras ao atual cenário de deságio a tornam de retorno eventualmente arriscado se o preço do barril ficar abaixo de US$ 51,69. Nesse caso, o fluxo de caixa da empresa não seria suficiente para pagar a dívida de US$ 135 bilhões, achacando-lhe a ação para perto de zero.

Mas, observa Damodaran, em sendo a Petrobras uma das maiores produtoras de petróleo do mundo e, embora de exploração questionável, dona da quinta maior reserva petrolífera do mundo, se o preço do barril ultrapassar a média atual de US$ 51,69 e o gerenciamento dela for redirecionado empresarialmente, a estatal se reerguerá.

Ao final, sem cobrar nada, dá sete conselhos ao novo presidente da estatal, Aldemir Bendine, para recuperar a empresa:

1. Contrate um diretor operacional que entenda de óleo e gás;

2. Demita qualquer alto executivo com algum elo político; (Ui!)

3. Busque se alinhar aos conselheiros que representam minoritários e defenda um conselho com maior independência e transparência;

4. Recuse-se a subsidiar combustíveis; (Ui2!)

5. Defenda que a Petrobras tenha apenas uma classe de ações, equilibrando o direito a voto e acompanhe esta atuação zerando o pagamento de dividendos; (Ui3!)

6. Reduza o foco no crescimento, tirando os investimentos em exploração do piloto automático; (Essa providência a Petrobras já tomou)

7. Comece a pagar as dívidas. (Sem perspectivas imediatas)

O professor Damodaran entende de “valuation”, afinal é dono de tal cátedra, mas não entende de política brasileira e não intui que as nossas estatais se comportam como meros braços políticos de qualquer governo.

Para que os sete pontos sejam implementados, é necessário uma palavra que para o atual governo, e para os protonacionalistas, é sacrilégio apenas sugerir: privatização.

4 comentários:

  1. Francisco Marcio09/04/2015 13:48

    Vossa Excelência tem coragem de propor isto ao seu amigo do peito: Renan Calheiros?!?

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    1. Eu já lhe disse que só tremo de medo quando a Dona Ann me chama de Parsifal, porque é sinal que o tempo fechou.

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  2. Francisco Márcio10/04/2015 12:43

    Dei-me essa canja, depois de tantos anos de casado, o tempo ainda fecha com a dona Ann? Pensei que quando atingisse o seu tempo de casado, o tempo seria sempre de céu de brigadeiro...

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    1. Exatamente porque o céu é sempre de brigadeiro, quando o tempo fecha eu tremo nas bases. E as vezes que já fechou foi exatamente por questões políticas e ela, em 10 das 10 vezes que trovejou até hoje, estava certa.

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