02/12/2014

A dignidade sobe a escada

Katya Silva, 38, é executiva de uma grande empresa de cosméticos, mãe de dois filhos e jamais usou a condição física para alavancar a carreira.

Ontem (2) Katya envergonhou a Gol ao se arrastar 15 degraus acima para embarcar em uma aeronave da empresa no aeroporto de Foz do Iguaçu-PR.

Shot 007

Katya porta osteogênese imperfeita, coloquialmente conhecida como "síndrome dos ossos de cristal". Seus ossos, além mal formados, são tão frágeis que se podem quebrar a qualquer movimento brusco.

A legislação, o bom senso e a civilidade determinam que as empresas aéreas disponham de equipamentos que facilitem o embarque de passageiros com deficiências de locomoção.

Quando os aeroportos têm pontes, uma cadeira de rodas é o suficiente, mas na ausência das pontes as empresas aéreas são obrigadas a ter um equipamento denominado ambulifit, que é um veículo equipado com elevador. O aeroporto de Foz de Iguaçu não tem pontes e nem ambulifts.

Shot 008

A tripulação se ofereceu para carregar Katya, mas ela temeu fraturar algum osso na operação e preferiu arrastar-se escada acima, sentando-se a cada degrau que rompia.

O mais amargo na história é o que deixa ver a primeira fotografia: a tripulação da Gol simplesmente desprezou a passageira à própria sorte, e ela subiu a escada sem sequer a presença física de alguém ao lado, para lhe prestar solidariedade na empreitada.

Disse Kafka que “a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”, e Katya Silva, ao escalar aquela escada, esbanjou dignidade.

A República brasileira precisa inculcar que locomoção faz parte do estoque inalienável de direitos do cidadão. 

3 comentários:

  1. Patricia Bittencourt Neves03/12/2014 10:55

    Realmente vergonhoso a postura da tripulação. Também fico indignada quando assisto a precariedade dos terminais hidroviários de nossa região no que se refere à acessibilidade. Parsifal, fico imaginando quanto tempo ainda será necessário para que os amazônidas tenha condições básicas para viver. É um paradoxo, uma distância muito grande entre o que a humanidade já conseguiu produzir e o que oferecemos nesta região. Isso é algo que me incomoda muito, as arbitrariedades, as incompetências técnicas e as cegueiras.

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    1. Estamos sempre um século atrasados. Mas em matéria de transporte público, principalmente no caso fluvial, estamos dois séculos atrás. Acredito, todavia, que esta terra ainda vai cumprir o seu ideal.

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  2. Ernani Beça03/12/2014 12:44

    Imagina nos aeroportos de Santarém,Altamira, Marabá e outros do nosso lindo Pará!

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