13/11/2013

Chamada a cobrar. Para aceitar, continue na linha após a identificação…

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Em 1982, a filha do engenheiro Adenor Araújo, 11 anos, esqueceu do dinheiro do ônibus de volta do colégio e sequer tinha uma ficha telefônica, única maneira de usar os orelhões. A mãe, apreensiva pela demora, foi à escola, onde serenou ao ver a filha.

Adenor, funcionário da Telesc, a companhia telefônica de Santa Catarina, não dormiu aquela noite: tinha como haver um jeito de fazer uma ligação sem precisar de uma ficha ou passar pela telefonista, que podia inverter a tarifação.

> Dois meses de noites claras

Depois de dois meses, Adenor, que começou a desenhar o circuito na noite daquele dia, estava com um protótipo em cima da mesa.

A inteligência do engenho era simples: dois reprodutores de fitas cassete, acionados por dois polos do circuito que desenhara e construíra.

Quem recebia a ligação ouvia a mensagem que Adenor pediu para um locutor gravar: "Você está recebendo uma ligação a cobrar. Continue na linha...". Quem ligava, ouvia: "Você está fazendo uma ligação a cobrar...".

Os dois polos eram sincronizados por bips que disparavam as mensagens e não derrubavam a ligação quando, ao fim da mensagem, quem deveria aceitá-la não desligava depois da identificação, invertendo a tarifação para o polo que recebia a chamada.

E para o circuito reconhecer que era uma ligação a cobrar e disparar os acionamentos programados? Simples, de novo. Bastava começar a ligação com o número 9.

> Simples uma pílula!

Eu falei simples duas vezes? Sou um boçal. Simples uma pílula! Simples é respirar, que já está gravado no DNA: o Adenor é um gênio, pois ninguém antes dele pensou na inversão automática da tarifa e muito menos queimou pestanas, e os dedos com solda, por dois meses, para pintar o seu sete.

> E aí…

E aí ele fez uma carta para a Telesc, pedindo que lhe fosse testada a arte. No primeiro teste o diretor ligou, a cobrar, para o então ministro das Telecomunicações, Haroldo de Mattos, que estava no Rio de Janeiro: foi a primeira ligação a cobrar do Brasil.

No mesmo ano, 1982, o invento começou a ser implantado no Brasil, o que fez todo o sistema economizar uma fortuna com telefonistas 24 horas. É claro que hoje em dia, quando se ouve aquela musiquinha da chamada a cobrar, alguém deve amaldiçoar o Adenor, mas quem origina a chamada deveria orar por ele sempre.

> A patente e a batalha jurídica

Em 1984, Adenor recebeu a patente e começou uma batalha jurídica com a Telebrás, que entrou na Justiça para anular a patente, alegando que já existia a ligação a cobrar e Adenor “apenas” automatizou o processo.

Aposentado, aos 72 anos, Adenor jamais desistiu da labuta jurídica e, neste 1º de outubro, 31 anos depois, ele recebeu uma ligação, que não era a cobrar: o seu advogado, que acompanhava o julgamento da causa no Superior Tribunal de Justiça, comunicou-lhe que a Corte o reconheceu como o único inventor do sistema automático da chamada a cobrar no Brasil, e proprietário legítimo da patente.

Mas esta é a parte do reconhecimento intelectual, o que é uma glória, pois ter ideias roubadas, ou não reconhecidas, é um sofrimento moral sem medidas. Adenor agora começa a batalha pecuniária, pois como a Telebrás foi extinta, ele deverá acionar as suas sucessoras para receber os royalties devidos, pretéritos e futuros, pelo uso da sua genial invenção.

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